Programação
Uma apresentação do Sufismo

Com Bia Machado
3 e 5 de julho de 2017, segunda e quarta-feira, das 14h às 17h

Perguntaram a Anis:
O que é sufismo?
Ele respondeu:
Sufismo é aquilo que consegue levar o Conhecimento Elevado ao homem.
Mas, se eu aplico os métodos tradicionais elaborados pelos Mestres, não seria isso sufismo?
Não é sufismo se isso não cumpre sua função com você. Um manto não é mais um manto se não mantém a pessoa aquecida.
Então o sufismo muda?
As pessoas mudam e precisam de mudança. Portanto, o que foi sufismo um dia, hoje já não é mais.
O sufismo, continuou Anis, é a face externa do conhecimento interior, chamado de Conhecimento Elevado. O fator interno não muda. O trabalho completo é, portanto, o Conhecimento Elevado mais a capacidade, gerando método. Aquilo que você gosta de chamar de sufismo é, simplesmente, o registro de um método ultrapassado. *

Como Excalibur, a espada que somente Arthur poderia tirar da pedra, o Conhecimento sempre retorna ao mundo dos homens quando as condições adequadas se dão, isto é, cada vez que uma pessoa encontra-se com o "seu próprio Arthur", a espada apresenta-se para o seu "ser espiritual" (al-rijâl) para ser extraída da bruteza e tornada eixo fundador de Camelot, a morada mística por excelência.

Como nas estórias de Scheherazade, o Conhecimento consiste num trabalho de tecer e entretecer os fios da realidade ao longo de mil e uma noites até que o "Sultão de cada um" possa se dar conta de que os males do mundo só tem remédio quando a interioridade se deixa penetrar pela luz espiritual.

Como em Maruf, o sapateiro, o Conhecimento é uma caravana de sonhos que chega para aquele que pode penetrar no universo imaginativo (al-hayâl) onde tudo pode e deve ser criado a cada instante.

Como nas incríveis trapaças do famoso ladrão Alim al-Ladin, o Conhecimento deve ser roubado à custa de ardis e truques para enganar o "inimigo mais próximo", o ego que se recusa a mover-se, exigindo a permanência e a estabilidade.

Como na travessia do Rei Lear ao desprezar Cordélia, o Conhecimento deve ser perdido para poder ser reencontrado.

Em todas as artes e ciências, em todos os lugares e tempos, em todos os céus e terras, o Conhecimento é ao mesmo tempo aquilo que se oculta e se mostra, que se revela e se re-vela ao homem. Assim, o Conhecimento é o aspecto vivo do mundo e conhecer é revivificar cada coisa, ou, dito em linguagem propriamente sufi.

"Como nos diz Jalâluddîn Rûmî**, cada uma de nossas individualidades eternas é uma Palavra, um Verbo divino, emitido pelo Sopro da Misericórdia divina. Quando esse Verbo penetra no coração do místico, (como em Maria pelo Sopro do Anjo), isto é, quando aflora em sua consciência o segredo de seu Senhor, quando a inspiração divina investe seu coração e sua alma, 'sua natureza é tal que então produz-se nele uma Criança espiritual possuindo o Sopro do Cristo que ressuscita os mortos".

*Idries Shah, Pensadores do Oriente, Ed. Roça Nova, Rio de Janeiro, 2013, p. 155.
**Um maiores mestres do Sufismo, autor do Masnavi, também conhecido como "o Corão persa".




 

 



Docente

Bia Machado, Formada em Psicologia, doutora e pós-doutoranda em Filosofia pelo depto. de Filosofia da FFLCH – USP. É estudiosa do Sufismo e da obra do grande mestre sufi Ibn 'Arabî. Autora, entre outras publicações, do livro "Sentidos do Caleidoscópio – uma leitura da Mística a partir de Ibn 'Arabî", Humanitas, 2004.