Programação
Excalibur – Leitura do Mito a partir do Sufismo

Com Bia Machado
4 a 25 de julho de 2018, quartas-feiras, das 19h30 às 21h30



Montado em seu burro, Nasrudin costumava cruzar, todos os dias, uma fronteira levando cestos cheios de palha. Como ele se confessava contrabandista, os guardas da fronteira revistavam-no todos os dias quando o viam voltando para casa. Revistavam-no, examinavam com extremo cuidado a palha, mergulhavam-na dentro d'água e chegavam até a queimá-la. Entrementes, ele prosperava visivelmente.
Depois disso, ele se aposentou e foi viver em outro país, onde, anos mais tarde, um dos funcionários da alfândega topou com ele.
– Agora você pode me contar, Nasrudin – disse o funcionário. – O que era que você contrabandeava naquele tempo em que nunca conseguimos apanhá-lo?
– Burros – respondeu Nasrudin.


 

A fim de levar a cabo sua imensa transformação do mundo, A Modernidade cortou alguns de nossos mais importantes laços com a Idade Média. Por três séculos, as escolas tiveram sucesso em criar uma sólida mentalidade racionalista, ensinando as crianças a ver nossos antepassados medievais como homens e mulheres ignorantes e ingênuos, que forjaram toscas explicações sobre a vida por causa de sua "falta de ciência verdadeira".

Nos anos 60, graças ao trabalho de pesquisadores como Alain de Libera e Frances Yates – para citar apenas uns poucos – e também graças à "re-introdução" do Sufismo na Europa, começamos a re-descobrir a "Idade das Trevas" e passamos a aprender sobre algumas de suas, agora muito bem-vindas, brilhantes luzes.

Medieval por excelência, a Lenda do Graal é uma das sínteses mais impressionantes desse período. Ela contém tudo: do conhecimento transmitido e praticado por sábios à função das estórias de ensinamento, da psicologia espiritual aos métodos de autoconhecimento, da história sagrada ao fim dos tempos. E sua permanência no imaginário popular é notável: desde o século XIII, essa estória é contada sob as mais variadas formas, por todo tipo de pessoas e em qualquer lugar do mundo onde haja gente.

O propósito do curso é abordar alguns dos temas acima dentro de seu contexto histórico, procurando compreende-los em seu sentido mais profundo e, ao mesmo tempo, insistindo em traduzi-los para a nossa vida e nossa experiência de cidadãos de hoje. O que nos permitirá experimentar por que lendas, mitos, contos e versos sagrados já foram percebidos como sendo mais reais que nossa própria suposta realidade concreta.

Cenas do filme "Excalibur", de John Boorman, serão apresentadas na primeira aula e analisadas ao longo do curso.





 

 




 

Programa
 

1º aula
Filme Excalibur

2º aula
Entrando no mundo do Simbolismo. Lancelot, Arthur, Guenevere e as faculdades de conhecimento. Os fundamentos de uma pedagogia espiritual.

3º aula
Explorando o universo simbólico das duas palavras que mais aparecem no filme: "sonho" e "amor", a partir de textos medievais sufis.

4º aula
"O mundus imaginalis", expressão cunhada pelo grande sufi Ibn 'Arabî para falar da faculdade da imaginação. O papel das narrativas na pedagogia espiritual.

5º aula
Três concepções de ser humano: a medieval, a moderna e a contemporânea. O que podemos aprender com cada uma delas?


 

Docente
 

Bia Machado, Formada em Psicologia, doutora e pós-doutoranda em Filosofia pelo depto. de Filosofia da FFLCH – USP. É estudiosa do Sufismo e da obra do grande mestre sufi Ibn ‘Arabî. Autora, entre outras publicações, do livro "Sentidos do Caleidoscópio – uma leitura da Mística a partir de Ibn ‘Arabî", Humanitas, 2004.