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  • Fique Sereno para Poder se Movimentar

    Roberta Lotti


     

    Herdeiros de uma das civilizações mais antigas do mundo, os chineses foram os precursores dos movimentos de preservação e restauração da saúde, contribuindo para a longevidade de seu povo. Desde 2500 a.C., já praticavam exercícios suaves e assertivos para melhorar os movimentos das articulações e aliviar a dor muscular causada pelas longas jornadas de trabalho. Com o passar do tempo, essas técnicas foram sendo aperfeiçoadas e passadas adiante como formas de viver melhor. “São todas práticas holísticas, que trabalham corpo e mente ao mesmo tempo. Cada uma tem suas particularidades, mas todas se pautam pelos princípios de eficácia, isto é, mínimo desgaste energético e máximo resultado”, explica Maria Lucia Lee, professora de Lian Gong, de São Paulo. “Por máximo de resultado pode-se entender força física, aperfeiçoamento das funções fisiológicas, regulação da respiração, das emoções e da mente”, detalha a profissional.

    Os exercícios – alguns mais ágeis, outros menos, dependendo da modalidade – são indicados tanto para manter o bem-estar e prevenir enfermidades como também para o tratamento de diversos males, desde dores nas costas e nas articulações até estresse, labirintite, lúpus, depressão ou câncer. E não há contraindicação, muito pelo contrário. Pessoas debilitadas e de qualquer idade podem – ou melhor, devem – experimentar esses movimentos. Como o dao yin e o lian gong, que visam equilibrar a circulação de energia, sangue e fluidos corporais por meio de posturas bem encadeadas. Dos exercícios chineses, o lian gong (pronuncia-se liam kum), é, relativamente, o mais recente. Em 1974, o Dr. Zhuang Yuen Ming, ortopedista em Xangai, percebeu um aumento na incidência de pacientes com dores musculares e articulares. Naquele momento, a região migrava do contexto agrícola para uma realidade industrial. Dr. Zhuang desenvolveu, então, uma sequência de exercícios mais próxima da linguagem ocidental, considerando as necessidades do homem moderno.

    A prática exige concentração, ritmo e trabalha com o fluxo do Qi (energia vital), mas está mais diretamente ligado à questão física. “São manobras terapêuticas e fisioterápicas voltadas para o alívio das dores. Trabalhamos com muito alongamento, tônus muscular, indo aos extremos com suavidade, pois os movimentos são amplos, lentos e contidos”, explica a professora Eliane Daruj.

    A sequência é composta de três partes de 18 movimentos cada. A primeira trabalha o sistema musculoesquelético; a segunda atua em articulações, tendões e órgãos internos; e a terceira ajuda no fortalecimento do sistema cardiorrespiratório. Cada parte tem duração de 12 minutos e pode ser praticada separadamente.

    Tudo isso contribui para gestos cotidianos como o de agachar- se, levantar-se e ter mais flexibilidade. Já para as pessoas que têm dores, a prática leva até à cura. “Uma aluna quebrou o braço e optou por fazer lian gong em vez da fisioterapia”, conta Elaine. “A recuperação foi surpreendente e ela ficou muito feliz, pois, além do foco no braço lesionado, também trabalhamos a respiração, a calma. Os benefícios são amplos”, diz. “Recentemente outro caso de destaque foi o de uma senhora com osteopenia (estágio inicial da osteoporose) que detectou um aumento da massa óssea depois de ter iniciado a prática. Isso é bem raro, mas foi muito gratificante saber que o exercício conseguiu isso”, relata a professora.


    Leveza que dá vitalidade


    Outra alternativa chinesa é o dao yin (“dao” significa caminho; “yin”, direcionar). “Os exercícios, inspirados em animais, no vento, no mar e em fenômenos naturais, são suaves, lentos, arredondados e espiralados, imbuídos de firme intenção”, explica o professor Jaime Kuk. A prática, que lembra uma dança, acontece em 12 exercícios sequenciais e ritmados executados em pé, ao som de uma música composta especialmente para ela. Neles se combinam atividade muscular, respiração, emissão vocal de sons sutis e foco mental em pontos específicos usados na acupuntura. Além de desbloquear a circulação do Qi, fortalecendo músculos, tendões e ossos, e harmonizando as funções dos órgãos internos, o dao yin refina os sentidos e aguça a percepção.

    Dessa forma, o organismo transforma a potência obtida do mundo material numa energia sutil que circula pelo corpo através de canais específicos (os chamados meridianos). “Isso está ligado às emoções, que por sua vez estão associadas a órgãos específicos. Portanto, ao desbloquear e harmonizar esses canais de energia, o dao yin desencadeia serenidade”, diz Kuk. E muito bem-estar.


    CONHEÇA AS PRÁTICAS CHINESAS OFERECIDAS NA PALAS ATHENA Exercícios da Medicina Tradicional Chinesa
    Com Maria Lucia Lee
    Quintas-feiras, das 9h às 10h15

    Tai Chi Chuan

    Com Jaime Kuk
    Segundas ou sexta-feira, das 10h às 11h

    Dao Yin
    Com Jaime Kuk
    Quarta-feira, das 17h30 às 18h30
    Saiba Mais
  • Em Discussão: Cultura de Paz - Entrevista com Lia Diskin
    O Programa "Em Discussão", da Tv Alesp, recebeu Lia Diskin - cofundadora da Palas Athena, Sandra Maria Fodra - gestora do Projeto Mediação Escolar da Secretaria da Educação/SP, Toninho Macedo - diretor cultural da Abaçaí Cultura e Arte e Alice Quintela - coordenadora do Núcleo de Educação do IBCCRIM, para conversarem sobre "Cultura de Paz".

    https://youtu.be/p8FAQEc8WX4

     
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  • Quiz Cultural com questões sobre Brasil, Índia e Gandhi

    Centro Cultural Swami Vivekanand


    Participe do Quiz Cultural com questões sobre Brasil, Índia e Gandhi. 8 de agosto de 2019, às 18h30
    Centro Cultural Swami Vivekanand

    Alameda Sarutaiá, 380 - Jardins, SP.

    Este evento faz parte das comemorações dos 150 anos de Gandhi.

    Registre-se até 1 de agosto em:
    icc3.saopaulo@mea.gov.in
    Evento Gratuito

    Mais informações: https://web.facebook.com/events/618694641970691/

    Apoio: Palas Athena e Tata Consultancy Services.

    Palas Athena
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  • Caminhada Mandela Day
    Todo ano, no dia 18 de julho, a comunidade internacional presta homenagens ao ex-Presidente da República da África do Sul e ícone internacional na celebração do Nelson Mandela International Day.

    O ano de 2019 assume um significado especial, uma vez que marca o 10º Aniversário dessa data. Neste contexto, no dia 03 de agosto de 2019, o Consulado Geral da África do Sul em São Paulo, em parceria com a Prefeitura de São Paulo e a Sabesp, realizará o evento para encorajar, inspirar e motivar pessoas de todas as idades e históricos a melhorar sua saúde física e mental por meio do exercício. A ideia é fazer algo que beneficiará aqueles em torno de nós como se inspirados pelo próprio Mandela.

    Na celebração do Nelson Mandela Day por meio da caminhada, temos a oportunidade de expandir o legado do ex-Presidente fazendo uma diferença tangível nas vidas dos outros. Ao marcar o 10º Aniversário do Nelson Mandela International Day temos a oportunidade de refletir sobre os valores que ele nos deixou. Uma área de importância especial para Nelson Mandela era a forma como tratamos uns aos outros em nossa vida cotidiana. Ele nos inspirou a transcender classes, raças e gêneros e nos unirmos como se fôssemos um só. Todos temos a responsabilidade de promover esses ideais para que a próxima geração tenha o poder de levá-los adiante.

    Mais informações:
    https://www.africadosul.org.br/pdf/MandelaDay-PressRelease-2019.pdf Palas Athena
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  • O que é o corpo de Qi e como cultivá-lo?

    Maria Lucia Lee


    O Qi é o sopro vital no qual estamos imersos por dentro e por fora. Embora seja invisível, percebemos a sua existência pelos efeitos que ele produz em nosso organismo e no mundo à nossa volta.

    No organismo, o Qi é responsável pela vida. Em seu fluir contínuo, leva nutrição, elimina resíduos, protege e orienta a produção das substâncias necessárias para a manutenção da vida. Assim, se o Qi deixa de circular em nosso organismo, não há mais vida. O corpo de Qi é sensível e sofre influências dos pensamentos, emoções e hábitos corporais. Para cultivá-lo, deve-se regular a mente, as emoções e o corpo.

    O Qigong (cultivo do Qi) são práticas tradicionais chinesas que têm como objetivo proteger a mente de pensamentos desequilibrantes, harmonizar as emoções e restaurar a movimentação natural do corpo. Portanto, a prática do Qigong requer uma abordagem ampla que integre mente, emoções e corpo.


    Maria Lucia Lee é formada em Física pela USP. Dedica-se desde 1978 à pesquisa, estudo e ensino das artes corporais terapêuticas da Medicina Tradicional Chinesa, tendo introduzido várias dessas metodologias no Brasil. Autora de livros, DVDs e CDs que se tornaram referências nacionais para o estudo e a prática das artes corporais terapêuticas da cultura chinesa.
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  • 7ª turma de Capacitação de Instrutores de Meditação

    Palas Athena


    No dia 18 de junho de 2019, ministramos a última aula da 7ª turma de Capacitação de Instrutores de Meditação da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.

    Essa capacitação ajudará a ampliar o número de grupos de meditação nas UBSs – Unidades Básicas de Saúde, bem como a quantidade de pessoas atendidas. As aulas aconteceram na sede da Associação Palas Athena.

    Palas Athena Palas Athena Palas Athena Palas Athena
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  • Michel Maffesoli: Notre-Dame, a transcendência imanente

    Michel Maffesoli

    Existem dramas que tocam os indivíduos, outros que abalam uma civilização inteira. Notre-Dame era um símbolo, não da França ou da cristandade, mas de uma cultura milenar que despertava um sentimento profundo de reverência. Essa sacralidade imanente se consumiu no último incêndio. Michel Maffesoli nos oferece seu depoimento.



    Na funesta noite de 15 de abril, a Notre-Dame de Paris queimava! Pouco a pouco, uma imensa multidão foi se reunindo ao redor. Impotente, mas em comunhão de destino com esse espírito de pedra em total incandescência. Povo silencioso. Depois, subitamente, cantava ou rezava a “Ave Maria”. Na Place Saint Michel, no Quai d’Orléans, na Pont Saint Louis, a emoção era sublimada por um canto que nada tinha de ofensivo, mas que ressoava como o eco de uma alma coletiva que, desde a Idade Média, envolve essa figura protetora da cidade.

    Um clima de devoção.

    Assim como Victor Hugo, em “Notre-Dame de Paris, publicado em 1831, inúmeros escritores a celebraram. Não estariam eles enfatizando que seus sinos, em particular seu bordão, emocionam mesmo os espíritos mais insensíveis e, em certas ocasiões, chegam a inflamar a cidade como um todo? O que causa espanto é o clima de devoção reinante ao redor da catedral. Algo que se assemelha a um pensamento meditativo Vem-me à mente a observação de Heidegger, que considerava “o pensamento como um exercício de devoção”. A devoção característica daqueles que se devotam a algo. O devoto assemelha-se igualmente a uma viga mestra de madeira que fornece a sensação de segurança e solidez. Notre-Dame existe como uma viga mestra fincada na terra para servir de fundação a toda forma de estar junto.

    O oportunismo midiático que impregna a grande imprensa deplorou esse incêndio ao bel prazer, como uma ameaça perigosa ao fascínio exercido por essa Igreja, mundialmente conhecida, que atrai 14 milhões de turistas todo ano, situando-a, assim, no mesmo plano da Disneylândia.

    Notre-Dame, a encarnação do sagrado.

    Redução de ótica utilitarista que não capta a força do imaginário, causa e efeito de uma edificação como essa. Os construtores das catedrais eram animados por um outro objetivo: uma encarnação do sagrado. A emoção coletiva que tomou conta da população ao ver a essa catedral queimar não é outra coisa senão a irrefutável permanência do que Joseph de Maistre denominava o “resíduo divino”.

    Resíduo como substrato sólido de qualquer sociedade, até mesmo de qualquer cultura. Resíduo que, como viga mestra da devoção, sem dúvida alguma está enraizado em um determinado lugar, mas não cessa de se irradiar de uma maneira que não poderia ser mais ampla. Bastava ouvir na multidão compacta os murmúrios pronunciados em nossas línguas latinas para compreender “a unidiversidade” simbolizada pela Catedral de Notre-Dame de Paris. Ela reúne o que estava disperso. É o protótipo do enraizamento dinâmico. O enraizamento do “comércio” em seu sentido mais amplo, que era pré-moderno e que certamente será pós-moderno.

    Tal “Comércio” pode ser encontrado no romance de Victor Hugo, no qual o corcunda Quasímodo, a cigana Esmeralda e o belo Phoebus de Châteauperce se mesclam numa sinfonia barroca na qual o falar em línguas diversas não enfatiza menos a unicidade fundamental em torno de um princípio comum. A narrativa expressa a nostalgia de um outro lugar, a nostalgia do homem como sujeito do desejo, sempre atormentado pela transcendência.

    A transcendência imanente das lágrimas.

    É bem isso que as orações e os cantos que se expressaram espontaneamente, as lágrimas que surgiram sem a menor vergonha traduziam: uma transcendência imanente que confortava e reconfortava um povo reunido.

    Durkheim falava dos “ritos expiatórios”, ritos de lágrimas. Momentos em que a emoção coletiva adquire uma função carismática, ou melhor, uma função de união, de comunhão. Renascimento de um laço que o individualismo moderno não conseguiu de fato romper e que em certos momentos readquire uma força e um vigor inegáveis. Sem sombra de dúvida, o palavreado midiático ou político “perora” a atração turística da Catedral, o que está bem longe de ser essencial. Isso porque, para além ou para aquém do turismo, a verdadeira atração é espiritual, até mesmo sacramental. Ou seja, ela se assemelha à imagem do sacramento, ela é o que torna visível uma força invisível, a necessidade de ir mais além do confinamento egotista próprio da modernidade. Dialogia entre o visível e o invisível que despreza a mercantilização dominante.
    Assim, além da destruição de uma joia do patrimônio da humanidade, o temor expressado nos rostos assustados era o de ver desaparecer um verdadeiro “matrimonium” coletivo. Lugar que serve de matriz espiritual para toda vida social.

    Mas, como ocorre em toda atividade humana, na expressão de Santo Agostinho, “in te ipsum redi”, é preciso conhecer a si mesmo, a fim de renascer e alcançar uma existência melhor. Tudo é símbolo. Na nave, a cruz luminosa sobre o altar central continuou a brilhar. Seria preciso talvez compreender esse incêndio como “catabase”? Descida aos infernos como indicador de uma ressureição que algum dia advirá. Foi precisamente isso que se sentiu na devoção coletiva em torno de Notre-Dame de Paris em chamas!



    Michel Maffesoli, professor emérito da Sorbonne, membro do Institut Universitaire de France.

    Depoimento publicado em "L’inactuelle, revue d’un monde qui vient", 16 de abril de 2019.
    .

    Tradução: Edgard de Assis Carvalho, Mariza Perassi Bosco.
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  • POR QUÊ STAR WARS NÃO TEM FIM?

    Camilo Ghorayeb - Palas Athena


     A pergunta é bastante coerente. Afinal, a história desse universo – que assim como a do verdadeiro Cosmos – parece estar em constante expansão, iniciou-se no já distante ano de 1977, quando ninguém sonhava em ganhar o público com narrativas sobre guerras siderais (e que, como explica a abertura do episódio IV – Uma Nova Esperança, aconteceram muito tempo antes de nossa era Terrestre).

    Faz 42 anos! A pergunta também é oportuna, já que, comprada pela gigante The Walt Disney Company, a saga ganha agora um parque temático exclusivo, o Galaxy’s Edge (veja as imagens da construção em: https://www.youtube.com/watch?v=SowdvPryB2g), a ser inaugurado no dia 31 de maio. Um detalhe: esta é só a primeira parte, com mais de 56.500 metros quadrados e até uma réplica de tamanho real da famosa Millennium Falcon. A outra parte, chamada "Star Wars: The Rise of the Resistance" pretende ser mais real ainda e incluir o visitante de uma vez por todas nas batalhas entre Jedis e o lado sombrio da Força.

    Com tantos anos, é claro que já se especulou todo o tipo de motivo para tanta longevidade e, o que é mais difícil, as razões para as pessoas ainda se mobilizarem demais com temas aparentemente já tornados clichês. O diretor e criador da saga, George Lucas, tenta minimizar seu feito explicando que na verdade é simplesmente uma história de traumas e tramas familiares como outra qualquer. Um pai difícil de ser encarado, reconhecido, filhos criados com histórias familiares inventadas para não serem expostos, descobertas chocantes e suas projeções cheias de culpa e medo, as fantasias de como nossas vidas deveriam ter sido e que acabaram arruinadas, a superação da raiva e da imposição de punições às gerações que nos antecederam, entre tantos e tantos outros.

    Lucas parece querer dizer que o fato de esta história se desenrolar no espaço envolvendo ideias sobre grandes forças do bem e do mal entrando em colapso representa os detalhes e as amplificações imaginativas do tamanho do significado que estas complexas histórias trazem, a dimensão dos desafios que a condição familiar impõe a todos, querendo ou não. Estaríamos portanto – a despeito de toda e qualquer tecnologia produzida, e até mesmo a despeito das grandiosas conquistas de um universo cheio de mistérios – ainda fadados a resolver o problema mais íntimo das relações humanas.

    Grandes explorações e conquistas poderiam ser – nesta perspectiva, inclusive – uma tentativa de desviar a atenção para aquilo que não nos deixa nunca, por mais força que se faça, por mais sucesso que se obtenha, por mais anos de terapia que se acumule: a implacável sacada de que a sua e a nossa culpa, nosso medo ou raiva jogados no mundo ou nas relações das quais fazemos parte sempre chegam a só uma dentre duas conclusões: a destruição ou recriação de si mesmo. Explore o universo, torne-se um Jedi, mostre seus poderes, seja grandioso, benevolente... construa o personagem que achar melhor. Ainda assim, a conta que será paga terá a ver, intimamente, apenas com você e – possivelmente – com questões que você nem pode imagina possuir. Parece clichê, e é. Mas já havíamos sido alertados pelo quarteto fantástico de Liverpool: O amor que você leva é igual ao amor que você produz. A dor também.

    Aqui é importante notar a ausência de um Deus provedor que organiza sua criação, e portanto a situação é ainda mais complexa - estamos à deriva, a “coisa” é com a gente mesmo, querendo ou não. Há uma espécie de Força que envolve tudo, mas que também dá espaço à criação de todo o tipo de criatura e situação, boa ou ruim.

    A organização destas possibilidades cabe somente aos que têm consciência suficiente para manipular tal Força na direção que entendem ser melhor para o Universo. Mas claro, isso cria um confronto direto com outros, com suas Forças, que entendem ser melhores. Estamos portanto muito além de princípios morais, razão pela qual a história contada se passa num universo distante do nosso, uma sacada de mestre de Lucas confirmada por seu consultor, Joseph Campbell—pois o universo estranho já prepara os espectadores para uma experiência que não pode ser julgada pelo que conhecemos até agora.

    Há muita especulação por trás da influência do famoso mitólogo na saga "Star Wars". Pelo que parece, uma parte é ficção: Lucas teria tido sua epifania criativa e baseado o roteiro do filme logo após ler "O Herói de Mil Faces", de Campbell. No celebrado livro o autor discorre sobre como diversas histórias mitológicas em diferentes contextos culturais, durante toda a jornada humana, parecem falar de um caminho em comum: o chamado monomito.

    Neste sentido, Campbell se alia a Jung no que se refere a imaginar a condição humana tomada por forças universais, naturais, e que ao adentrarem a cultura por meio da capacidade simbólica humana, ganhariam imagens específicas, personagens, aventuras, sempre de acordo com as condições geográficas e culturais da sociedade que as cria. Mas ao retirar este véu – que veste o herói de regiões tropicais com sungas e o imagina em aventuras dentro de florestas, o que não acontece com o herói de regiões frias ou desérticas – sobrariam temas comuns a todos eles.

    O caminho do herói então seria uma tradução do que é comum ao ser humano, do que invariavelmente passamos, independentemente do trabalho, sucesso (ou fracasso) que temos, assim como as tramas familiares comuns que acontecem mesmo num espaço distante, tecnológico, que teriam ocorrido muito tempo antes de nós.

    Finalizando esta parte ficcional, voltamos ao fato de Lucas não ter tido esta epifania por causa do livro de Campbell. Algumas fontes menos fantasiosas que recontam esta história dizem que Lucas já tinha o projeto, personagens e uma grande parte da história. Mas muito dela foi também modificada no caminho, ganhou vida própria (como acontece com coisas que criamos a partir de nós, mas que não parecem nossas). Darth Vader a princípio não era pai de Luke Skywalker. Seu verdadeiro pai realmente havia sido morto pelo amedrontador personagem que quase não respira sozinho. Aparentemente, mesmo depois do lançamento do primeiro filme contando a saga de Luke, esta questão ainda estava indefinida. Ganhou força na medida em que a mudança de uma história real, concreta, para uma simbólica pareceu ter maior força, pois falava mais com nossas fantasias, com as histórias que criamos para dar conta de encarar a realidade.

    Lembro-me do ótimo filme "Doze homens e uma sentença". A história é de um júri popular, pessoas que não se conhecem e que precisam tomar uma decisão sobre um suposto filho que esfaqueou e matou seu pai. Precisam decidir se ele é culpado ou não e, então, mandá-lo para a cadeia ou para casa. Na regra americana, país onde a história se passa, os doze devem ter o mesmo veredito para poder anunciá-lo, o que causa muito desconforto – pois estas pessoas foram obrigadas a parar suas vidas, convocadas a decidir sobre algo que talvez nem as interesse. Para encurtar a história, o filme todo é uma grande discussão sobre a culpabilidade do garoto, mas que tem diversas faces. Onze dos doze escolhidos querem culpá-lo, mas um resiste e tenta fazer um trabalho de análise mais apurado, até que as razões para a culpabilização vão se desvelando. Uma delas é o descontentamento em estar lá. Em outras palavras, “vamos todos decidir logo que ele é culpado e sair daqui”. Mas ainda aparecem outras: raciais – o suposto criminoso é porto-riquenho; e as de relações pessoais e simbólicas – um dos últimos homens a mudar seu voto sentiu-se “esfaqueado pelo próprio filho quando este decidiu sair de casa e ter sua própria vida”.

    O filme poder ser visto na plataforma Vimeo, pelo link: https://vimeo.com/158869195
    É neste sentido que Lucas entende que, ao invés da morte real, a morte simbólica de um homem, pai de Luke, para o nascimento de outro (Darth Vader) parece falar mais com questões humanas. Com o livro de Campbell, Lucas admite que muito foi compreendido – entendeu que seu caminho estava certo e, além disso, usou do imenso estudo do mitólogo para afinar seus personagens em consonância com os temas humanos que vivemos, seja neste planeta ou em qualquer outro.

    E para finalizar, Campbell, um entusiasta da história, ainda sugere: Lucas criou uma aventura no espaço porque não há mais lugares desconhecidos em nosso planeta, onde os mistérios do que a vida é feita podem somente ser contemplados e, exatamente porque não os deciframos, temos que respeitá-los. Neste sentido, os elementos da vida ainda estão vivos, ainda falam com todos nós, não foram explicados, definidos (por mais que, na verdade, mesmo uma explicação racional não consiga esgotar um fenômeno).
    Mas não estamos falando aqui de uma dissecação real e completa de como a vida na Terra funciona, mas sim do fato de nossa imaginação acreditar tão seguramente nesta hipótese, que o que nos deslumbrava como o mistério da criação, de onde todos viemos – e isso não implica ter uma religião para perceber – é realmente desconhecido e, portanto, maior que todos nós.

    Em outras palavras, no âmago da sensação de sermos filhos de algo, de pertencermos a algum lugar, está a necessidade de perceber-se menor que este lugar! Mas a definição do que é este lugar, paradoxalmente, o diminui! Estamos aqui, no momento de nossas vidas, em que percebemos que já vivemos o suficiente com nossos pais para conhecê-los e que, então, é melhor abandoná-los e buscar ampliar a vida. Os pais diminuem com o tempo. Mas não é o fim. Eles também crescem de volta – e deveriam – pois são redescobertos na medida em que vivemos experiências parecidas com as deles e ampliamos nossa sensação de mistério sobre o que eles passaram – já que nós, nesta posição, podemos nos sentir tão confusos (por exemplo: casamento, criação de filhos, família, ou mesmo qualquer ato de cuidado que possa nos fazer ponderar sobre como teria sido cuidarem de nós mesmos – questão que antes não estava provocada dentro de nós).

    A história de "Star Wars", num lugar desconhecido como o Universo, permite que resgatemos essa sensação de filiação e desconhecimento, o que uma vez mais provoca nossas questões mais essenciais. Mas ainda mais importante: com a realocação da imaginação – não mais no mundo – deixamos de jogar nossos medos, culpas e dores nas relações que conhecemos e passamos a ter uma nova chance imaginativa. Colocando de outra forma, a psique não está esgotada, não estamos sem saída, e nossos pais e relacionamentos mais próximos, nossa própria humanidade, não é culpada de tudo. Há muito mais por vir. Há o que não se conhece. Deixa-se de projetar no outro, em algo literal como “o que você fez comigo”, e pode-se então ter mais espaço e tempo (perdoem a ironia da expressão), sentir-se menos ameaçado para respirar e produzir a única força, esta que nos envolve sempre, que pode nos ajudar a nos relacionar com os mistérios da existência – a consciência. Sim, esta que tem como característica uma força reflexiva, que se volta, a partir de nós mesmos, para nós mesmos. É o fim do outro como o mal do mundo e do que eu mesmo vivo.

    Não é por acaso que esta é a história de Star Wars, Darth Vader, seu filho Luke e das relações amorosas e fraternas (ainda que novas tramas menos profundas parecem estar sendo criadas desde que a Disney assumiu o controle). Darth Vader parece ter ainda amor pelo filho. Luke ainda pode resgatá-lo, mas não à força, precisa da compaixão pelo caminho do pai. Léia é a redescoberta de sua tradição, seu lugar, sua família. Vader é Luke em sua possibilidade de sair do inconsciente – que pode deixá-lo quase sem respirar. Luke é Vader em sua necessidade de compreender os caminhos difíceis de perda e ganho da vida e que, em realidade, não tem culpados. Estamos todos por aqui, ainda, vivendo todas estas coisas. Talvez então com estas imagens, tenhamos algumas pistas do porquê "Star Wars" ainda é "Star Wars".
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  • Celebração do legado de Martin Luther King no Sesc Vila Mariana

    Sandra Godoy - Palas Athena


    O teatro do Sesc Vila Mariana foi palco de uma celebração pela cultura de paz, da não violência e da tolerância na noite de terça-feira, dia 2 de abril, durante a “16ª Semana Martin Luther King” - uma realização da Palas Athena, junto ao Sesc, com a cooperação da UNESCO e do Consulado Geral dos Estados Unidos da América em São Paulo.

    A partir do tema “Não permita que ninguém o faça descer tão baixo a ponto de sentir ódio”, o evento começou com a exibição do episódio Nashville – Nós fomos guerreiros, do filme-documentário Uma força mais poderosa – um século de conflitos não violentos, que mostrou o início das conquistas dos direitos civis nos Estados Unidos, na década de 1950.

    Em seguida, a Adida Cultural do Consulado Geral dos Estados Unidos da América em São Paulo, Sra. Madelina M. Young Smith, falou sobre a importância do legado de Martin Luther King em sua vida, como mulher afro-americana que pôde cursar a universidade e se colocar no mercado de trabalho. Ela também contou um pouco da história do líder ao fazer um “quiz” com o público, revelando fatos como o local de nascimento, seu nome verdadeiro (Michael King Jr.) e as personalidades que ele admirava, como Mahatma Gandhi. O Juiz de Direito Dr. Egberto Penido, coordenador do núcleo de estudos de Justiça Restaurativa da Escola Paulista de Magistratura, lembrou como a luta de Martin Luther King foi importante para a conquista dos direitos civis, luta que persiste até hoje e “que temos o dever de continuar”, disse.

    Para encerrar a noite, o Coro Luther King, sob a direção do maestro Martinho Lutero Galati, fez uma emocionante apresentação de canções gospel favoritas do reverendo, assim como músicas brasileiras como “Viola Enluarada”, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, e “Tributo a Martin Luther King”, de Wilson Simonal.
    A Semana Martin Luther King acontece todos os anos no mês de abril desde 2004, com o objetivo de disseminar o legado da experiência do líder pacifista, revelando sua continuidade e atualidade. Em 2019, ele completaria 90 anos de idade.
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