Retiro Internacional - Geshe Labsang Tenzin Negi: "Cultivo da compaixão – uma abordagem cognitiva” https://www.palasathena.org.br/2013/04/19/2013/ Training Retreat A abordagem é de um protocolo de 2004 proposto na Universidade de Emory. A base é a prática de Lojong, que tem 2.500 anos. Chronic Stress and its impact on Health. Stress = our troubles. Em 2002/2003, na Emory University, tivemos várias crises mentais / emocionais entre os estudantes. Tivemos 2 suicídios em cada um desses anos. Saúde mental, isso era o que se estava precisando. Dr. Charles trabalhava nessa época em pesquisas sobre meditação; ele é um especialista em saúde mental e depressão. Prozac e outros medicamentos não são para ele a forma de solucionar tais problemas. Ele estando na Emory, podíamos trabalhar juntos no desenho deste tipo de prática que vamos expor durante este retiro. Vivemos em uma sociedade altamente estressante e, seguramente, a situação vai se agravar. Há uma correlação entre o estresse e os problemas mentais. Esta forma de vida promove estresse no cenário mental, social. Mas é superlativo o que projetamos no mundo em que vivemos. Dr. Roberto Sapolsky ─ “por que as zebras não ficam com úlcera ou estressadas?”. Elas desligam a resposta aos estressores quando a situação estressante acaba. Nós, humanos, continuamos plugados a esses estressores, e isso tem um custo para nosso corpo. No início de 1970, Benson, em Harvard, constatou que o estresse é promotor de anomalias como hipertensão, problemas cardíacos. Ele estudou a Meditação Transcendental e viu que essa prática promovia o desligamento desses estressores, permitia o relaxamento. O excesso de estresse contribui para as doenças mentais, entre elas a depressão, se propagarem tão rapidamente no mundo moderno. A causa do estresse é produzida pela mente. Medicamentos não são suficientes. Talvez a compaixão possa contribuir naturalmente para minimizar esse estresse. Nossa hipótese é que a prática da compaixão nos permite reduzir o exagero com o qual avaliamos pessoas, situações, o futuro etc. A literatura budista está cheia de citações sobre compaixão. Para o Dalai Lama, amor e compaixão não são luxos, são a base de qualquer desenvolvimento espiritual. Como desenvolver a compaixão? Modelo ─ “Enxergar, ter a visão, o comportamento e a meditação” ─ “Como vemos nossos vizinhos, nossa família, nosso futuro, nossos projetos tem um tremendo impacto em como tratamos os outros.” Há uma conexão íntima entre a forma de ver a nós próprios, os outros, e a percepção ética, o compromisso ético. A compreensão conceitual é muito importante para a qualidade da ação. Pensar-sentir-agir. Exemplo: estamos saindo por uma porta e a pessoa que estava andando na nossa frente solta a porta e ela bate na nossa cara. Nós tínhamos presumido que a pessoa sustentaria a porta e nos deixaria passar. Raiva é a reação inicial que se desencadeia em nós pela ação do outro. Logo percebemos que essa pessoa que estava na nossa frente é cega. Para onde vai a raiva? Ela se dilui porque uma nova percepção nos permite reavaliar a situação, conectando-nos com o real. A visão mais abrangente, abarcadora, é a da interdependência. Ela nos conduz à compaixão, à não violência. Ajustes finos com a realidade, isso nos levará a emoções positivas. “Os neurônios que disparam acabam por formar soldados juntos.” “Lojong” ─ treinar a mente para se tornar mais compassiva, positiva, saudável.
- Meditação analítica: exame cuidadoso, não é olhar externamente, desmembrar algo, reduzir algo a uma fórmula.
- Meditação estabilizadora.
2ª Sessão ─ Sábado, 27 de julho de 2013
Período matutino Como estamos aqui procurando cultivar a compaixão, podemos pensar em nós como jardineiros. Como estes, precisamos 1) remover os elementos que obstruem o crescimento saudável das plantas e 2) promover o que favorece seu crescimento. As condições propícias ao crescimento do amor e da compaixão são empatia, proximidade, e evitar envesamento, rejeição, contrariedade crônica, emoções negativas, ciúmes, inveja, egocentrismo, desejo pela fama, foco em nosso auto interesse apenas, sem nos importar com os outros. Emoções aflitivas impedem o florescimento do amor e da compaixão. Mas também, no próprio momento que elas surgem, já causam estragos, perturbando a nossa paz interior e as relações com os outros. Como jardineiros, então, temos de nos tornar perceptivos das condições destrutivas, desfavoráveis quando ou tão logo elas emergem. Sabendo que qualquer coisa desencadeia essas emoções, temos que nos preparar, capacitando-nos para não sucumbir a elas. Shantideva no “Bodhicharya Avatara” diz acerca do Lojong: “aqueles que desejam proteger sua mente das emoções destrutivas, têm que promover mindfulness e visão interior (clareza)”. É de Shantideva a imagem da mente impulsiva como sendo um elefante selvagem que pode provocar grandes danos. Porém, estes não chegam nem perto dos danos que uma mente “selvagem” (não educada, domesticada) pode ocasionar. Como se treina um elefante? Talvez isso nos dê uma pista sobre como treinar a nossa própria mente. Havaviveka, outro mestre budista, diz como domesticar um elefante: precisamos 1 pilar, 1 corda e um bom treinador. No início o elefante se rebela, mas o treinador, com paciência e persistência, acaba por domesticá-lo. Mindfulness = manter a consciência da informação. Qual informação? A de que as emoções destrutivas estão aí, ou em nós ou perto de nós, e precisamos evitá-las, transformá-las. Portanto, manter na memória o que nos constrói e também o que nos destrói. Introspective vision ou vigilance, detectar, perceber, reparar quando um impulso começa a emergir. Isso nos torna semelhante ao treinador que percebe quando o elefante sai do pilar e usa o gancho para restabelecê-lo no pilar. Restauramos o centro perdido. É o mesmo que dirigir um carro em uma estrada, temos que manter a atenção firme e fazer as manobras necessárias para não provocar acidentes. Para manter essa atenção, é necessário aumentar a presença. Do mesmo jeito que quando machucamos uma perna ou um braço, para recuperar a vitalidade perdida fazemos fisioterapia ou ginástica, levantando-se alteres (pesos). Não fazemos isso sempre e constantemente, mas em um período determinado para fortalecer a musculatura. O mesmo pode se fazer com referência à mente. Como? Contando a respiração. Essa contagem fortalece a qualidade da presença, a consciência do que acontece exatamente no momento. Isso cria musculatura mental. Portanto, a meditação pode ser comparada a uma “academia” onde fortalecemos a “musculatura” da presença. Adicionalmente, é preciso vigilância interior que nos permite notar as distrações, as “viagens”. Também é necessário detectar o estado torpe, quando perdemos clareza, letargia ou falta de energia, narcotização, adormecimento. Shamatha em 9 estágios é ilustrado na metáfora do elefante, que simboliza a nossa mente que, em seu estado primário, é preto. Nós somos o monge que está com o gancho e a corda na mão para educar o elefante. Neste 1º estágio, o elefante está sendo conduzido pelo macaco, que é o símbolo das distrações, agitação, falta de foco. O nosso progresso é medido pelo nosso sucesso em nos manter longe da agitação e da lassidão. Passo nº 1 é colocar a atenção sobre a respiração: PLACING THE MIND Passo nº 2 é colocar continuamente, isto é, voltar à respiração quando ela corre longe, sai do foco: CONTINUAL PLACEMENT. Ainda não conseguimos colocar o laço no elefante. O fogo que está nos estágios é o esforço. Passo nº 3 é recolocar, ou seja, ter a capacidade de voltar ao propósito de estar consciente na respiração. O elefante já conseguiu ser laçado: REPLACEMENT. Neste estágio há um coelho acima do elefante. O coelho simboliza a lassidão sutil ou a preguiça. Passo nº 4. Passo nº 5, o macaco já não está mais na frente do elefante, pois já temos um controle. Contudo, o macaco não foi embora, ele está por aí: CONTROLING. Passo n° 6 é a pacificação, onde a preguiça desapareceu, o coelho não aparece. A mente está clara, sem nevoeiro: PACIFYING. No passo n° 7, o macaco está atrás do elefante. Preguiça e excitação, agitação, ainda estão presentes, mas de modo muito atenuado, sutil. Requer um pequeno esforço ainda a manutenção da atenção: COMPLETELY PACIFYING. No passo nº 8, é necessário um impulso da intenção para ir diretamente ao foco: SINGLE-POINTEDNESS. No passo n° 9, não há mais esforço. Equilíbrio estável. É um grau de atenção muito elevado. Estamos em completa sintonia com a consciência do que é construtivo e do que é destrutivo: PLACEMENT IN EQUIPOISE. Estado otimizado de clareza mental e presença da consciência. Adquire-se aqui uma flexibilidade de corpo e mente, uma alegria estável. Tal estado é como ajustar a mente a um telescópio ou microscópio. O próprio processo de cultivar a motivação já cria grandes benefícios. Na ilustração do Shamatha, a última cena no topo mostra um elefante que está voltando no caminho, é o símbolo do bodhisatva (aquele que não procura a liberação individual / pessoal). O monge também parece estar voltando ─ ele está livre, leve. Há também 2 caminhos, um caminho bifurcado: o hinayana-theravada e o mahayana. Mindfulness tem 2 vias de exploração; uma delas é mais estrita e a outra mais ampla. Na explicação da ilustração do Shamatha, é a primeira via, estreita, e está simbolizada pela corda. Estar ciente da respiração, ou da impermanência, ou da interdependência etc. Na via ampla, é estar alerta sobre quais impulsos ou reações automáticas podem surgir a qualquer momento ─ ter visão interior. Em pali é SATI. Reter informação (a estrita) e a visão interior, isso constitui a visão ampla. Exemplo: ter diabetes ou ser alcoólatra. Se tem diabetes, tem que evitar comer o que prejudica você, tem de ler os rótulos dos alimentos. Um alcoólatra, o simples bater dos cubinhos de gelo em um copo pode desencadear a vontade de beber. A visão interior de perceber em si mesmo o impulso de querer beber. Perceber os gatilhos e desativá-los. Desativar a força que o impulso (fruto do hábito) tem. Vigilância introspectiva= correto entendimento. A consciência pode ser comparada a uma vela: ela tem a condição de iluminar. Para meditar, é necessário lembrar: Não é um fim em si mesmo, mas manter a atenção sobre o presente com foco na respiração. Sustentar a capacidade de reter o foco na respiração. Retenção da memória na respiração. Contudo, sabemos que a mente é como o elefante: pode correr para fora do pilar ou dormir. É necessário perceber que perdemos o foco. Não entrar então em julgamento, críticas etc. Simplesmente, ao notar a distração, voltar ao foco sem discursos internos. Se percebemos que entramos em torpor, letargia, enfatizamos o foco e endireitamos a postura. Período da tarde Tempos atrás, saiu na capa da revista Times um artigo intitulado “Como ficar mais inteligente, um passo de cada vez.” O estudo referia-se a mindfulness, e concluiu que a prática diária promovia aumento das ligações físicas do cérebro, melhor memória, melhor aprendizagem, mais inteligente. Além do mais, previne casos de Alzheimer, demência, diminui o estresse. Mindfulness:
- Reter informação
- Examinar ou vigilância introspectiva
- Ser consciencioso
Autocompaixão Se observarmos e ficarmos mais cientes de nossos pensamentos e emoções, fica claro que no fundo todos os seres desejam a felicidade, o florescimento, e evitar o sofrimento, ficar livre de sofrimento. Este é um binômio intrínseco à vida. Aqui, quando falamos de sofrimento, não é o natural (doença, ficar velho, perder coisas ou pessoas), mas aquele que emerge quando nossas expectativas não se cumprem. Dor é inevitável, sofrimento é opcional. Shantideva (séc. VII) apesar de nosso desejo de fugirmos do sofrimento, parece que corremos atrás dele. Apesar de querermos a felicidade, a nossa ignorância nos impede de alcançá-la. Desejos fortes são causa de sofrimento, tudo indica, entretanto, que temos um grande estoque de desejos: ciúmes, raiva, ego autoenfatuado, inveja etc. Estamos escravizados por estes desejos. Quais são as causas da felicidade? Mindfulness, amor, perdão, desapego, tolerância, humildade são essas causas. Porém, se não as nutrirmos, como pode haver felicidade? A causa raiz do sofrimento é a ignorância. Mas ignorância não é a única causa de sofrimento. Ignorância é falta de conhecimento e é também conhecimento distorcido. Vasubandhu ─ quando as predisposições para emoções aflitivas não foram eliminadas, se houver condições que as promovam, elas emergem. É como se houvesse uma predisposição genética. Todos nós temos predisposição para o ciúme, raiva e assim por diante. Eis que, justamente por isso, não devemos projetar coisas ruins ou apegos desmedidos. Oito Dharmas Mundanos ─ 4 deles são coisas das quais gostamos, portanto, projetamos coisas boas. 1) possessões, riquezas. Outorgar um valor desmedido, uma expectativa de que a riqueza será fonte de felicidade duradoura é um engano. Uma expectativa que nem sempre se realiza, ou seja, não é causa suficiente. Expectativas cegas, idealização, projeções errôneas causam pressupostos como o de que maior a riqueza, maior a felicidade duradoura. Para quebrar tais pressupostos é necessário bom senso, observação da nossa própria vida e da sociedade. 2) Fama, ser importante, ter status é outro dos Dharmas Mundanos do qual gostamos. Porém, a fama não é a fonte da felicidade, pode ser uma condição dela quando na medida saudável. A fama é efêmera. Imagem, famoso, celebridade ─ tudo quanto sobe, desce, dizia Buda. 3) Elogios, aplausos, somos viciados em elogios. Shantideva diz: “sempre haverá alguém para elogiá-lo porque preocupou-se com a crítica de alguém. Sempre haverá alguém para criticá-lo porque ficou enfatuado com os elogios de alguém”. 4) Prazer, conforto. Tome por prazer mesmo aqueles que destroem, como o álcool, as drogas. Prazeres são fugazes e dependem de um estímulo. Esses 4 descritos acima têm seus opostos:
- rejeição à falta de riqueza;
- rejeição à falta de fama,
- rejeição à falta de elogios e
- rejeição à falta de conforto.
- Todas as reuniões terminam em separação. Não ver ou reconhecer isto é motivo de sofrimento.
- Toda acumulação termina em exaustão ou esvaziamento. É necessário sintonizar-se com a realidade para não ter angústia mental.
- Tudo que sobe, desce. Não importa que subamos muito na vida, não é possível subir eternamente.
- Nascimento termina em morte. Isto é inevitável, é parte da realidade. Kisa Gotami era uma mãe no tempo em que Buda estava vivo. Seu bebê morreu e ela ficou arrasada. Foi de mestre em mestre pedindo desesperada que dessem vida a seu filho, que trouxessem seu bebê à vida novamente. Foi ao encontro do Buda e pediu-lhe o mesmo. O Buda lhe disse: “Deixa teu bebê aqui e, por favor, vai buscar um punhado de cereal de uma casa onde nunca tenha morrido alguém alí”. Ela vai de casa em casa e sempre lhe dizem que sim, que havia morrido alguém nesse lar. Após visitar quase todas as casas da vila, Kisa Gotami entendeu que a morte faz parte da vida, é natural. Retorna ao local onde estava o Buda, e após três prostrações, lhe disse: “Obrigada por abrir os meus olhos. Aceite-me como sua discípula”.
Domingo, 28 de julho de 2013. Shantideva, no Bodhicharya Avatara diz que se uma pessoa não consegue nem em sonhos se libertar do sofrimento, como poderia libertar outros? Aquilo que facilita a nós tomar a resolução de emergir, sair do sofrimento, é reconhecê-lo como tal. Lembremos que em relação ao sofrimento há o inevitável (tornar-se velho, morrer, separar-se daqueles que amamos, falta de saúde, encontrar as coisas que não desejamos) e aquele que é opcional. Estes últimos, se o manejarmos de maneira correta, podemos libertar-nos desses sofrimentos. No relato de Kisa Gotami, a agonia que sentiu ao não aceitar a morte do filho, isso era optativo. Quando ela aceitou o inevitável ─ que o filho tinha morrido ─ ela se liberou desse sofrimento opcional. As 8 obsessões mundanas, as 4 desejáveis e as 4 indesejáveis, todas elas são contraproducentes e destroem nossa felicidade. Precisamos nos sintonizar com a realidade da impermanência. Nós não podemos mudar as circunstâncias do mundo exterior e as questões de riqueza, fama e assim por diante. O que sim podemos mudar é a forma de ver, de avaliar as situações do mundo. Shantideva: nós poderíamos cobrir a superfície inteira do mundo para não machucar nossos pés ao andar. Porém, podemos ter uma atitude bem mais simples, que é usarmos sapatos. Abraham Lincoln disse: “a melhor forma de conquistar, vencer um inimigo é torná-lo nosso amigo”. Autocompaixão ─ Algumas recomendações finais:
- Reserve tempo para refletir sobre o que está nos atormentando. É necessário ir em busca das origens. Queremos ser elogiados constantemente? Temos expectativas equivocadas sobre os outros e as circunstâncias do mundo? Essas expectativas poluem nossa vida interior. Refletir sobre a impermanência das coisas, pessoas, situações e igualmente nossa própria impermanência é um fator poderoso para nos libertar dessas obsessões danosas.
- Developing appreciation and gratitude for others.




