Luís Fernando Bravo de Barros, Graduado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP) e pós-graduado em Direito Internacional pelo CEDIN (Belo Horizonte, MG). Master of Advanced Studies em Paz e Transformação de Conflito pela Universidade da Basiléia, Suíça, e mestrando em Paz, Desenvolvimento, Segurança e Transformação Internacional de Conflito pela Universidade de Innsbruck, Áustria. Advogado militante na área criminal desde 2004. Membro do Instituto de Defesa do Direito de Defesa e voluntário nos programas de educação no cárcere e de educação básica de direito em escolas públicas do ensino médio (2012-2013). Praticante de Mediação Vítima-Ofensor na unidade do Ministério Público do bairro de Santana, na cidade de São Paulo, sob supervisão do Instituto THEM (2013).Frete Grátis em compras acima de R$200,00 Sul e Sudeste
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Luís Fernando Bravo de Barros, Graduado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP) e pós-graduado em Direito Internacional pelo CEDIN (Belo Horizonte, MG). Master of Advanced Studies em Paz e Transformação de Conflito pela Universidade da Basiléia, Suíça, e mestrando em Paz, Desenvolvimento, Segurança e Transformação Internacional de Conflito pela Universidade de Innsbruck, Áustria. Advogado militante na área criminal desde 2004. Membro do Instituto de Defesa do Direito de Defesa e voluntário nos programas de educação no cárcere e de educação básica de direito em escolas públicas do ensino médio (2012-2013). Praticante de Mediação Vítima-Ofensor na unidade do Ministério Público do bairro de Santana, na cidade de São Paulo, sob supervisão do Instituto THEM (2013).
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Luiz Henrique Góes, Capacitado em Filosofia e Ética pela Associação Palas Athena, integrante de seu Conselho Deliberativo, é criador e facilitador dos vídeos-diálogo da pedagogia pró-ativa não violenta de Gandhi e Martin Luther King para escolas e organizações sociais. Desde 2007 realiza mensalmente o projeto da Palas Athena de cidadania, ética e valores universais com os vídeos-diálogo nas unidades da Fundação CASA na Grande São Paulo, destinado aos jovens em regime de medida socioeducativa. Exerce a odontologia como profissão, a fotografia e a literatura como atividades criativas.
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Luiz Marcello Moreira de Azevedo Filho, Engenheiro Mecânico com pós graduação em Administração de Empresas pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. Experiência profissional nos campos de projeto e gestão de empreendimentos de geração de energia. Atuou por 20 anos na direção de entidade de fins filantrópicos ligada às áreas de educação e assistência social. Participou dos cursos Cultivando o Equilíbrio Emocional (2013), de Formação em Ética, Cultura de Paz e Dinâmicas de Convivência (2014) e de Formação em Atenção e Concentração nas Práticas Meditativas (2016). Integra a equipe de monitores da Palas Athena.
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Luiza Hiromi Tanaka, Enfermeira e professora de Mindfulness certificada pela Breathworks no Reino Unido para ministrar o programa básico de MBPM – Mindfulness para saúde e estresse, reconhecido e indicado pelo Prof. Jon Kabat Zinn. Instrutora de “Atenção, Concentração em Práticas Meditativas” formada pela Associação Palas Athena. É doutora em Enfermagem pela pela Universidade de São Paulo e realizou seu pós-doutorado em Ciências pela Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo. Professora orientadora do Programa de pós-graduação da Escola Paulista de Enfermagem da UNIFESP, desenvolvendo pesquisas em práticas integrativas na abordagem qualitativa. Tutora da Liga Acadêmica de Saúde e Espiritualidade com estudantes da área da saúde e responsável pela Disciplina eletiva de Práticas Atencionais para a Saúde Integral: base na neurociência e espiritualidade. Presta serviços para Neuroconecte, empresa voltada para a Educação Socioemocional nas escolas, sobretudo com os professores.
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Nas páginas deste guia, de autoria de Lia Diskin, há sugestões para cultivar os princípios, diretrizes e valores da cultura de paz, sintonizadas com a grande sabedoria africana do conceito de Ubuntu: Somos o que somos por tudo aquilo que todos somos.Saiba Mais
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Transcrição da palestra proferida por João Signorelli, realizada no Centro Cultural da Índia, em São Paulo, no dia 30 de janeiro de 2013, por ocasião do 65º ano da morte de Mahatma Gandhi, em sessão promovida pelo Consulado da Índia, o Centro Cultural da Índia e a Associação Palas Athena.Saiba Mais
“Boa-noite amigas, boa-noite amigos. Eu estou muito feliz por estar aqui. Estava ontem conversando com a Profª.Lia, na Palas Athena, que estou me sentindo numa estréia, porque é a primeira vez que participo de uma mesa redonda sobre Gandhi. E está sendo muito bom estar do lado dessas duas figuras maravilhosas. Primeiro o Eduardo Jorge que deu uma aula muito boa sobre as grandes idéias, as idéias principais de Gandhi e, depois, a Carmem que nos trouxe essa experiência da Fundação Casa. Eu me lembro que em abril de 2003 eu tinha terminado a apresentação de uma versão de uma peça de Tennesee Willians, Um Bonde Chamado Desejo, dirigido pela Cibele Forjaz, que fez uma temporada de quase dois anos de muito sucesso, e eu estava naquela fase de pesquisa. Ator quando está desempregado fala que está pesquisando. Então eu estava em casa, pesquisando, tocou o telefone e era o Miguel Filliage, um dos autores do texto, diretor da peça, dizendo: ” João, o Alexandre Garret, dono de uma revista chamada RH, vai produzir um fórum sobre recursos humanos cujo tema é liderança e ele pediu um espetáculo de teatro para a abertura do fórum. Eu pensei em termos de liderança, pensei no Gandhi como grande líder do século XX e pensei em você para fazer...” Eu disse “Mas o que eu tenho a ver com Gandhi, Miguel?” Eu tinha um cabelo grande, todo encaracolado. Ele disse “Vem aqui em casa e aí você vê.” Fui lá, li o texto, me apaixonei completamente pelo que estava naquele papel, vi que eu estava diante de uma coisa diferente do que eu estava acostumado a fazer, era um outro tipo de teatro, era outra coisa que ele queria comunicar, uma outra coisa. E começamos a ensaiar. Eu relutando a raspar a cabeça. Propus até colocar uma peruquinha de palhaço – ele disse que ia ficar ridículo. Enfim, uma semana antes da estréia, fui ao barbeiro, raspei a cabeça e quando caiu o cabelo pensei “nossa, tem realmente alguma semelhança com ele”. Tem. Eu não acreditava que tivesse. E aí estreamos no dia 23 de junho de 2003. Era para ser um espetáculo só. Acabou o espetáculo, falei “Miguel, um espetáculo tão legal como esse, agora que entrei de cabeça...” E ele disse “olha, não tenho tempo, meu consultório está cheio e, então, se você quiser tocar a produção, você toca.” Aí conversei com meu terapeuta, “o que é que eu faço?”. Ele: “eu vou te dar uma idéia. O meu irmão é dono de um bar na Vila Madalena, chamado Mojave. O bar fica fechado aos domingos. Eu vou propor para ele você fazer o Gandhi lá.” Aí na hora eu disse “você propõe para o seu irmão para a gente fazer o espetáculo e depois servir um jantar. Aí eu janto com o público, converso com o público...” Ele falou com o irmão, o irmão topou e a gente combinou. Então, a pessoa pagava trinta reais, isso era o segundo semestre de 2003, assistia o espetáculo e depois jantava. Aí eu conversava com o público e assim fizemos. Só que antes de ir para o Mojave, eu tenho uma grande amiga, a Ana Figueiredo e disse a ela “Ana, dá uma olhadinha nesse texto aqui.” Ela falou “ O texto é muito bacana, mas tem alguns conceitos aqui que estão batendo um pouco na trave na concepção gandhiana. Vou apresentar a você a Lúcia Benfatti, lá da Palas Athena, pois eles são especialistas no Gandhi.” Ela trouxe o texto para a Lúcia, que apontou coisas fundamentais no texto, tanto que durante o espetáculo, embora ela não goste muito, eu dou o crédito a ela e à Ana Figueiredo por terem colaborado demais para a concepção do texto, que virou uma concepção teatral. E aí fizemos a peça no Mojave, segundo semestre de 2003. Em 2004, a Cibele Forjaz disse que a FUNARTE, que todo ano dá a uma companhia de teatro o Teatro de Arena para fazer um trabalho de pesquisa, escolheu a Companhia Livre. Então, a Cibele disse “João, vem fazer o Gandhi, para abrir o processo, para limpar todos os fantasmas que tem no Teatro de Arena.” Eu falei lógico que eu vou. Imagina um palco onde pisaram Paulo José, Lima Duarte, Antonio Fagundes, Dina Sfatt, Milton Gonçalves, um projeto criado pelo Augusto Boal. Então, a história do teatro brasileiro da televisão brasileira ali. Eu fiquei muito feliz por poder pisar com meus pés descalços e fazer o Gandhi lá. E fizemos uma experiência que até hoje eu não consegui repetir. Não tinha preço de ingresso lá. A gente punha assim na bilheteria: “pague o quanto quiser após o espetáculo”. A pessoa assistia ao espetáculo e depois punha lá na caixa quanto ela achava que valia o espetáculo. Um dia foi muito legal, o administrador do teatro disse “João, tem um menino que vende bala aqui na esquina da Ipiranga com a Consolação, que está louco pra ver o espetáculo. Ele não tem dinheiro e perguntou se pode pagar com bala.” Eu disse “que coisa maravilhosa” e aí acabou o espetáculo e tinham dez balinhas na caixa. Que coisa linda. O menino foi ver o espetáculo e pagou com bala. Foi uma temporada muito bacana. Aí eu vi no jornal que ia estrear um espetáculo que chamava Quinta nos Infernos. Aí eu pensei: tem Terças Insanas, Quintas nos Infernos, acho que vou alimentar as Quartas com Gandhi. Aí fui procurar um amigo meu, o dono do restaurante Sattva, o Giba, e perguntei a ele “o que você acha?” Ele disse “maravilhoso, vamos fazer que nem lá no Mojave, trinta reais, assiste o espetáculo e depois é servido um jantar vegetariano e você bate papo com a platéia.” Fizemos e ficamos dois anos e meio. Quanto eu fui para o Sattva eu comecei a dar algumas entrevistas, algumas pessoas de empresas, pessoas de publicidade foram me ver, mas a gente estava num momento muito crucial, eu acho, no processo do Gandhi. Estava indo pouca gente lá assistir.A gente estava com alguma dificuldade financeira, eu estava na loucura de tirar dinheiro do cartão de crédito para pagar a produção, poder pagar gastos. Vocês sabem que isso é uma loucura. E um dia me ligam da Secretaria de Cultura de Santa Bárbara d´Oeste. Foi o primeiro momento que a equipe tomou uma atitude concreta do que a gente estava falando em cena. Porque a gente percebeu que se a gente não tentasse, pelo menos, se comportar um pouco como o Gandhi pregava e como a gente estava dizendo no espetáculo, esse projeto não ia longe. E nesse dia me ligou o Secretário de Cultura de Santa Bárbara d´Oeste e disse assim:”João, estamos fazendo uma semana da importância da arte na educação e o rapaz que vinha fazer a palestra de teatro teve um problema de saúde na família e não vai poder vir.” Eu disse “Quando é?” Ele disse “É no sábado à tarde.” “Que horas?” “Dezoito horas”. “Santa Bárbara d´Oeste fica a quanto tempo de São Paulo?” “Ah umas duas horas, duas horas e meia você consegue chegar aqui.” Eu pensei “ Bom eu pensei, o que eu tinha?” Eu dei aula durante dois anos na Oficina de Arte Raul Seixas do Tatuapé. A Diretora ligou e perguntou se eu não queria fazer o Gandhi lá, para os funcionários, professores, seus colegas. Eu disse sim. Ela avisou que seria “na faixa”, não tinha cachê, mas eu topei para fazer para meus colegas, mas só que era no mesmo sábado. E o cachê de Santa Bárbara d´Oeste era mil e quinhentos reais, um dinheiro que a gente estava precisando naquela semana para cobrir alguns gastos de produção e pessoais meus e do pessoal que estava trabalhando. Então eu disse ao Secretário: “Sim, eu já tenho um espetáculo marcado, eu vou ligar para a pessoa e vou ver se consigo me desvencilhar”. Liguei para a Elisabeth contando o que estava acontecendo. Ela disse “Ah, eu te entendo perfeitamente, a decisão que você tomar eu vou aceitar, fique a vontade, mas já tem muita gente inscrita.” Eu desliguei o telefone e pensei “Puxa, a gente está falando de ética, conduta única, verdade, eu já tenho um compromisso com eles... Então eu vou fazer o espetáculo na Oficina Cultural.” Liguei para o Paulo e disse “Paulo, aconteceu isso e isso.” Ele disse “Está certíssimo. Vam´embora.” Fui na Oficina, acabou o espetáculo, uma senhora se aproximou e disso “ Você faz em casa esse tipo de trabalho?” Falei “Faço, por que?.” No Natal tem muitas famílias que querem contratar pequenas peças de 20 minutos. No outro dia me ligou o vice-presidente de um banco e disse “Olha meu filho está fazendo 17 anos, precisa conhecer o Gandhi.” Aí eu fui lá, fiz o Gandhi no Natal dessa família. E a senhora que procurou no teatro disse que ia fazer aniversário semana que vem e queria oferecer, para a família e os meus amigos, o Gandhi.Perguntei a ela “A senhora quer os 20 minutos ou inteiro?” Ela: “Quero inteiro.” Acertamos o cachê, fui lá. Acabou o espetáculo, eu sou míope, vi uma pessoa se aproximando e quando chegou perto vi que era o Luis Gê. Muitos de vocês devem conhecer, ele é um cartunista famoso, trabalhou na Folha de S.Paulo, é um artista gráfico maravilhoso. Nós dividimos a casa na época de faculdade, moramos juntos dois anos. E o Luís Gê é muito amigo do Arrigo Barnabé, fez as capas dos discos dele, os cenários dos shows...Falei:”Luís Gê, o que você está fazendo aqui?” Ele: “Ah, eu estou namorando uma menina aqui na rua da Amélia e, quando soube que era você, vim te ver.” Fazia uns quinze anos que a gente não se encontrava. Aí ele disse:”olha, eu e o Arrigo Barnabé estamos preparando uma ópera para o SESC Ipiranga, sobre o Santos Dumont. Eu vou falar para o Arrigo te colocar no projeto.” Eu falei: “Ah, legal, vou fazer algum personagem ..” Depois ele me ligou e disse “Olha, o Arrigo topou e você vai fazer o Santos Dumont.” Eu disso “Ah, vocês estão loucos, o que eu tenho a ver com o Santos Dumont?”. Ele disse: “É que é um ator canastrão que é brasileiro, mora na França, sabe que estão fazendo um filme sobre Santos Dumont, e vem para o Brasil para se candidatar ao papel.” Aí eu falei “Ah mas eu vou ter de cantar ópera?” Ele disso que não , mas eu acabei cantando ópera também. E foi engraçado. No elenco tinha uma atriz negra, Denise Assunção, irmã do Itamar Assunção, que fazia a Torre Eifel e o Santos Dumont cantava pra ela assim:”Ô lataria velha do primeiro mundo, no meu país eu sobrevôo o Pão de Açúcar, o Corcovado...” Enfim, aí acertamos tudo, a data e aí veio o produtor: “Agora o cara do financeiro vai te ligar.” Ele disse “Olha João, são sete récitas, porque cantor de ópera não pode cantar muito, tem vinte dias de ensaio, então são vinte e sete dias. Olha, você desculpa mas o cachê é um pouco baixo, mas é o que a gente tem pra oferecer.” Eu perguntei: “Quanto vocês têm para me oferecer?” Ele disse “Temos oito mil reais, sei que não é muito....” Aí começou a cair a ficha. Chamei o Paulo e disso: “Olha Paulo o que aconteceu. A gente fez uma promessa, cumpriu essa promessa, deixou de ganhar mil e quinhentos reais que ia resolver um problema imediato, e toda a história se desenrolou e apareceram esses oito mil reais e ainda vai sobrar um troco para cada um.” Aí, a partir daí, as pessoas começaram a lotar o Shatva, isso em 2005. E a partir desse momento a gente não teve mais problema nenhum financeiro, até hoje. Então, o que acontece? Se você fica na verdade, você se compromete, você não fica se desviando do caminho, tem uma resposta. É impressionante a lei da ação e reação. Aí tocamos a nossa produção. Fomos lá pra Praça Roosevelt, onde a barra ainda estava meio pesada. Ficamos um ano e meio no Studio 84. Fui fazer uma temporada no Teatro Alfredo Mesquita , em Santana. E, em 2006, o espetáculo deu um up-grade, em termos teatrais. Foi para o Rute Escobar. Onde fizemos várias temporadas, maravilhosas. Mas o foco continuava – universidades, empresas, colégios...eu comecei a dar entrevistas, fazer alguns espetáculos e aí surgiu o projeto da Fundação Casa. Desde o começo eu pensava o seguinte: “Paulo, a gente está ganhando tanta coisa da Sociedade através desse trabalho, vamos fazer um de graça uma vez por mês para devolver tudo o que estamos recebendo.” E calhou de ser esse projeto para a Fundação Casa e é com grande alegria que a gente trabalha lá. Aconteceram muitas coisas interessantes. Uma basicamente muito interessante, foi quando fomos uma vez numa unidade feminina e ficamos impressionados, pois se via que eram meninas com cabelo bem tratado, pele boa... Aí perguntei para uma funcionária “Escuta, o que é isso?” Ela disso: “É tráfico. Namora o cara errado, se enrola na vida e tão aí...” Eu observei que havia uma menina com uma presilha diferente. Não sei porque eu e o Paulo ficamos muito impressionados com essa menina da presilha e, um mês depois, era dezembro, havia uma matéria na TV Record sobre aquela unidade da Fundação que a gente foi e aparecia aquela menina dizendo:”Tem aparecido uns caras aqui pra falar de Gandhi e eu estou entendendo uma coisa, finalmente, que meu corpo pode estar preso, mas meu espírito está livre.” Você ouvir isso de uma menina, que não tem nem quinze anos de idade, é maravilhoso. Tínhamos também um projeto nas penitenciárias femininas no estado de São Paulo, mas aí quando houve aqueles ataques do PCC nos solicitaram para não ir mais, para não facilitar possíveis seqüestros, houve mudanças na direção da Secretaria, etc. Mas, na primeira penitenciária que a gente fez Carandiru, a Diretora da Cadeia disse que “Uma detenta se aproximou de mim no café da manhã, agradeceu por ter trazido você e me disse que depois que ela assistiu a peça, pela primeira vez na vida ela foi recolhida para a cela dela e ela entrou com a sensação de ter uma mão amiga guiando ela dentro da cadeia.” Você contribuir para mudar um ambiente desses é fantástico. E continuamos. Empresas... Houve uma vez que o Padre Júlio Lancelotti, quando andaram matando uns sem-teto no centro de São Paulo, me chamou para fazer um espetáculo nas escadarias da Catedral da Sé, para 400 sem-teto. Fomos, ficaram em silêncio absoluto. Para mim foi emocionante. Eu tenho uma formação cristã, minha família é católica. E, de repente a gente estar em frente à Catedral da Sé fazendo o Gandhi. Aí acabou o espetáculo, passa uma menininha de uns nove anos e diz pra mim: “O senhor é Jesus?”. Disse “Não minha filha, ainda terei muitas encarnações até chegar perto.” Quando fizeram a novela O Caminho das Índias, o Jornal da Tarde de convidou para fazer uma matéria: eu vestido de Gandhi andando pela Praça da Sé pra ver a reação das pessoas. Foi muito curioso. Tinha um rapaz, um morador de rua, que chegou para mim e disse “É, dizem que o Gandhi morreu, mas ele não morreu não, ele apenas mudou de estação.” E teve um outro que quando eu desci do carro gritou:”Olha o Sadam Hussein ali gente!” . Numa outra ocasião, em um asilo aqui em Santo Amaro, chamado Mão Santa, nós fomos fazer a festa de Páscoa deles. Eu entrei em cena e um velhinho gritou “Papai Noel!”. Quer dizer, de que gaveta da memória ele tirou essa figura? Passei o espetáculo reprimindo o riso.
Então, a gente se comprometeu. Uma coisa que desde pequeno me incomodou muito eram as mentiras ditas sociais, aquelas que a gente acha que não vão causar dano nenhum nas relações humanas, mas elas são devastadoras. Então a gente resolveu parar de mentir. A equipe inteira resolveu parar de mentir para a continuidade do projeto. E mentir não é só mentir para o outro, mas para a gente mesmo também, se enganar a si mesmo. E aconteceu um fato que foi uma verdade que tive comigo mesmo e na hora eu fiz, pretensiosamente, uma analogia: foi o Gandhi vencendo o império da época e um ator convencendo a Globo a aceitar o que eu queria. Foi o seguinte, quando a Globo produziu a série Amazonia, eles me chamaram para fazer. E o diretor, o Marquinho Schechtman, muito amigo meu me convidou para fazer a primeira fase, que se passava no Acre. Eu perguntei “Marquinho como é que vai ser?” Ele disse “Ah, a gente vai ficar no Acre de 15 de outubro a 10 de dezembro.” Eu disse “Puxa, é a época que eu mais trabalho com Gandhi, é época de formatura, festa de empresa, temporada de final de ano que lota os teatros.. Então ele disse “Está bem, então você faz a segunda fase, que será no Rio de Janeiro, em janeiro.” E eu “Ótimo, janeiro é um mês mais parado. E que personagem eu vou fazer?” Ele: “Você vai fazer um personagem da borracha” Na época da Segunda Guerra Mundial o Brasil passava uma seca muito grande e muitos nordestinos foram levados para a Amazônia para colher a borracha, pelo esforço de guerra. Fo interessante porque pude resgatar uma história da minha família, pois meu avô paterno era cearense, de Itapipoca, e ele foi levado nessa época também. Tanto que meu pai nasceu no Amazonas. E eu acho que essa cor que eu tenho, meio indiana, que me ajuda a fazer o Gandhi, é resultado dessa coisa amazonense da minha avó paterna e do fato de minha mãe ser do sul da Itália, com influência moura. Então pensei, vou tentar reviver as energias do meu avô. No finalzinho do ano ele me liga e diz “João, eu e a Glória Perez estamos com um problema. O elenco da primeira fase é muito bom, da segunda também, mas estamos com dificuldades na terceira fase. Você topa fazer a terceira fase? Eu mantenho o teu contrato, te dou até mais um mês e as condições financeiras são as mesmas. Mas só que você muda o personagem.” “Ah, está bem, mas que personagem eu vou fazer?” “Se vai fazer dupla com o Paulão e vocês vão ser opositores ao Chico Mendes.” Eu desliguei o telefone. O Paulão é um ator maravilhoso, mas só faz matador. Pera aí, dupla com o Paulão, opositor do Chico Mendes na mini-série, deve ser para matar. Não posso. Não posso fazer o Gandhi à tarde e matar o Chico Mendes à noite na TV Globo. A televisão é uma coisa muito forte. Passei a mão no telefone e disso “Marquinhos, sabe da minha batalha de mudar o perfil. Na televisão fiz muita coisa de bandido. Estava querendo mudar esse perfil. Comecei numa mini série chamada Aquarela do Brasil, onde fazia um advogado bem bacana que recebia os judeus refugiados da guerra...Marquinhos, estou há quase cinco anos fazendo Gandhi, estou tentando limpar meu carma e você quer me dar um papel para matar o Chico Mendes? Meu querido, eu estou abrindo mão numa boa da minha participação na mini-série. Não posso fazer o Gandhi há tanto tempo e ter uma atitude dessa na TV Globo. Adoraria participar da mini-série mas fica para uma próxima. Se você me desse um papel em que eu entrasse em cena, desse um abraço no Chico Mendes e um boa noite eu ficaria felicíssimo, mas desejo o maior sucesso pra vocês e não vai faltar oportunidade da gente trabalhar junto.” Desliguei o telefone . Passaram-se dois dias. Volta o Marquinhos:” Ô Joãozinho, eu estou aqui editando o primeiro capítulo, ta uma loucura, mas olha só, eu vi teu recado, falei com a Glória Perez, e você tem toda a razão. Se não pode mesmo fazer o Gandhi e matar o Chico Mendes. Você ia fazer um filho do Darli, você tem toda a razão: fazer o Gandhi mudou sua vida, mudou a sua relação com a arte, então vamos respeitar isso e te dar o papel de um fotografo.” A história do Chico Mendes é muito curiosa, como vocês devem saber. Um correspondente do Estadão lá em Rio Branco mandou uma notinha mas caiu na mão de um jornalista interessante, que quis saber quem era aquele cara e aí foi atrás da história e aí virou tudo o que virou. E o Marquinho disse:”Você vai fazer um fotógrafo, que nem tinha na história, mas vai buscar ele na cadeia, vai levar a mulher dele pra ganhar o neném ...” E assim fizemos. Olha só, fui verdadeiro comigo mesmo, coloquei de maneira gentil, bem humorada a minha reivindicação, não ofendi ninguém e pedi o que eu achava mais justo, e a TV Globo, por meio de um diretor, de uma autora como a Glória Perez, entenderam e mudaram o que eu ia fazer. Não dá para passar incólume por um personagem desses. Eu senti. Quando eu li o texto, pensei, isso aqui é totalmente diferente, acho que agora eu vou poder começar a contribuir como cidadão. Eu fazia novela, fazia teatro, já tinha uma preocupação social, trazia isso dentro de mim, mas, eu brinco, é como aquela espuminha da champanhe, esse mundo de glamour, esse mundo de cinema...aí comecei a fazer mais o Gandhi, a conhecer mais o Gandhi foi me distanciando um pouco desse mundo. O que por um lado é legal, mas por outro lado também é um tipo de problema para a minha carreira. Outro dia eu encontrei um autor de novela e disse “Ô Lauro eu queria fazer a tua novela.” E ele me disse “Mas você não é o Gandhi?”. Mas o que eu quero dizer a vocês é o que eu sinto hoje é que se tiver de parar de trabalhar hoje eu posso me considerar um homem realizado. Estou a nove anos e meio fazendo esse personagem e brinco, às vezes, que a gente vai da senzala para a casa-grande. Outro dia passamos a tarde inteira na favela de Americanópolis, falando pra 50 jovens. e no final da tarde pegamos um avião e fomos fazer um espetáculo numa Mineradora, que foi comprada por um indiano Botaram a gente num hotel em Vitória, aquela coisa do luxo. E comentamos: “Puxa, a gente saiu de Americanópolis, as pessoas com aquela dificuldade, e agora a gente está aqui.” Eu disse: “Tá vendo, isso é para ver o que a gente não precisa como aquela passagem do Gandhi em frente a um shopping em Londres. Alguém perguntou: “Você quer comprar alguma coisa?” E ele:” Não, não, eu só estou vendo aquilo que eu não preciso.” Então, a gente vai para muitos públicos. Já fiz para uma pessoa que foi no teatro, me assistir. Nós artistas, temos um compromisso com o público. A dona do teatro disse assim “João, é uma pessoa só, você vai fazer?” Eu disso:”Lógico, a pessoa sai de casa, gasta seu tempo, seu dinheiro, e eu não vou fazer? Eu também aproveito, ensaio, experimento coisas novas.” E numa dessas, no caminho de você se manter no caminho da verdade, no caminho do respeito pelo outro, em outra ocasião havia apenas duas pessoas. A Dulce disse “João,tem só dois homens, você vai fazer?” Eu disse “Não tem o menor problema, “ Fiz. Ao final um dos homens chegou pra mim e disse:”Eu sou presidente do sindicato das agências de propaganda do Norte e Nordeste. Me indicaram o teu espetáculo e eu vim a São Paulo esse final de semana apenas para te assistir e gostaria de te contratar para um evento lá na Bahia.” Isso eu aprendi com o Gandhi a abrir os olhos, ficar atento, as oportunidades estão passando na sua frente e se você estiver na verdade, centrado com você mesmo, você tem condições de fazer o que tem de fazer. Isso o Gandhi me trouxe e eu fico muito feliz de estar podendo, no século XXI, como o Eduardo falou, nos somos ocidentais, eu sou mineiro, nasci no sul de Minas, trago muita coisa das águas minerais no meu organismo, então é o Gandhi que passa por este homem urbano, de 57 anos de idade e que traz toda a experiência de ter crescido junto a cachoeiras, junto as águas minerais, que pode mostrar para as pessoas que é possível ser honesto, fazer esse trabalho, ser exemplo. Hoje eu fico muito feliz. A classe teatral é meio engraçada, alguns viraram a cara pra mim e uns poucos dizem que é um exemplo. Eu fui a Portugal participar de um festival na cidade do Porto, um festival que existe desde a Revolução dos Cravos, um diretor falou “João, aqui em Portugal nós não temos a prática de fazer peças com personagens históricos. Você me deu uma idéia de começar a pensar em uns personagens históricos.” Então, você vai fazendo uma coisa aqui outra lá. Estou feliz, tenho trabalhado nas universidades, nas empresas, fiz um espetáculo lindo na Palas Athena. Eu não conhecia a Palas Athena, a Profª Lucinha me chamou para fazer. Quando eu entrei naquele auditório, naquela casa antiga, a emoção da Lia quando viu o Gandhi – então trocamos uma energia muito forte. Então, eu acho que estou contribuindo como cidadão, como ator. Já fui também no CDP2 de Guarulhos. Vocês não imaginam nessas cadeias novas de São Paulo, os caras parecem bichos, Eles têm cela, uma grade e ficam ali o dia inteiro para lá para cá. Isso não é vida pra ninguém. O diretor da Cadeia me ligou e disse “João, eu preciso trazer o Gandhi para cá, porque 80% da população carcerária está entre 18 e 22 anos de idade.” É muito jovem, não dá. A gente tem de fazer alguma coisa. A gente contribui um pouquinho, vai na Fundação Casa, se conseguir tirar um de lá já estou tranqüilo. Alguns amigos me dizem “Ah, você fica enxugando gelo, mostrando Gandhi pra bandido...” Digo a eles: “Sabem o que o Gandhi falou um dia? Eu odeio o pecado, não o pecador” Todo mundo tem uma centelha divina. Se tirarmos um desse mundo do crime a gente já está feliz. O Marcos hoje me falou que tem um menino lá fazendo aula de ioga, imagine o que esse menino faz, ensinando técnicas de respiração, posturas. Na Fundação Casa, na Cadeia, eles falam “Quando vocês vão lá acalmam o ambiente, fica uma energia de calma.” Então, essa experiência de nove anos e meio me faz sentir que eu quero continuar, tenho certeza que quero continuar fazendo o Gandhi, e unir o oriente e o ocidente é uma oportunidade, uma oportunidade de trazer todo o conhecimento, toda a espiritualidade do oriente desenvolveu e tentar aplicar no ocidente.
Para terminar e tentar responder a questão do nosso querido Consul, na minha vida aconteceu isso. Foi um tsunami a entrada do Gandhi na minha vida, que mudou completamente a minha relação com a minha família, com os meus amigos, com o meu trabalho. E hoje o resultado é esse.
Tive também a oportunidade no ano passado, e foi um dos momentos mais felizes dessa trajetória , de fazer um espetáculo com .Arun Gandhi, neto de Gandhi, que conviveu até os sete anos com o avô. Foi lá na favela em São Miguel Paulista. Ele anda pelo mundo hoje falando para jovens de grandes cidades e periferias, falando da não-violência, da cultura de paz. E nós conseguimos fazer uma homenagem para ele. Uma amiga me disse “Olha João, você recebeu tanta coisa de Gandhi e agora está devolvendo para ele através do neto.”.
Essas histórias que tenho vivido me têm dado muita energia para continuar esse trabalho. E com esse apoio da Palas Athena , o Consulado da Índia, esse povo todo que está com essa energia, vai ser inevitável, vai virar, uma hora o bem vai virar. E o que o Eduardo falou é importantíssimo e me deixou feliz é que essa virada vem de dentro, essa revolução vem de dentro, se a gente não mudar por dentro não vai conseguir muita coisa. Eu sou muito grato por um dia o Gandhi ter me escolhido – porque tem essa lenda de que os personagens escolhem os atores – agradeço ao Mahatma por ter me escolhido, para, no Brasil, no final do século XX e comecinho do século XXI, poder dar meu corpo, meu sentimento, minha energia para dar passagem a esses valores e esses pensamentos. Achei muito interessante o que o Eduardo falou, pois era uma reflexão que eu fazia há muito tempo: Che Guevara, Lenine, Mao-Tsé-Tung perante um Gandhi ficam um pouquinho esquecidos. São importantes, homens importantes na história da humanidade, mas o Gandhi está aí, sendo discutido, livros inclusive escritos contra ele –dois que li, que não acrescentam nada, são uma tentativa de ganhar dinheiro – mas ele está aí, com a força da verdade, a força do amor e essa é inquebrantável como o bambu. Muito obrigado.” -
Transcrição da palestra proferida por Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, realizada no Centro Cultural da Índia, em São Paulo, no dia 30 de janeiro de 2013, por ocasião do 65º ano da morte de Mahatma Gandhi, em sessão promovida pelo Consulado da Índia, o Centro Cultural da Índia e a Associação Palas AthenaSaiba Mais
“Boa noite. Quero agradecer o convite da Associação Palas Athena, da Lia Diskin, do Consulado e do Centro Cultural da Índia. Eu vim aqui porque a Lia pediu. Não tenho tanta intimidade com Gandhi, como tem o João Signorelli (também integrante da mesa), que conhece tudo dele. Anotei algumas palavras em sânscrito, que vou utilizar. Repito que não tenho tanta intimidade com uma pessoa tão grande para a humanidade como Gandhi, mas, como a Lia colocou, é importante que alguém da política brasileira fale de como isso impactou a sua vida, nesses 40, 50 anos. É uma visão de uma pessoa do ocidente, de formação cristã, influenciado, fortemente, pelo capitalismo e pelo socialismo. Nossa formação foi marcada por essa forma de viver, uma sociedade onde a cultura da violência, a lei do mais forte, desde antes dos romanos, é a que vigora. Então, é difícil para mim perceber o que significou e o que continua significando a pessoa de Gandhi. Mas, se tenta.
A primeira observação que faço é que ele, como disse o consul (da Índia), chegou a uma posição de quase santo ou de santo, mas, vendo-se a história de Gandhi, a autobiografia que escreveu na prisão, até 1925, se percebe que ele era um homem bastante comum, o que valoriza ainda mais esse seu percurso, nos seus setenta e sete, setenta e oito anos. Ele quando foi para a Inglaterra fez coisa incríveis do ponto de vista da posição a que chegou. Chegou sim a ser um santo, mas era um homem bastante comum, para os padrões indianos, o que mostra como esse percurso é possível, não sendo preciso que caia um raio no caminho de Damasco, como aconteceu com nosso São Paulo. Ele foi aos poucos, a duras penas, se transformando no que se transformou. O livro dele é fantástico. Mostra, com sinceridade, como isso aconteceu. E o aprendizado que teve com a política, particularmente, é interessantíssimo. Voltando da África, da experiência africana, em 1901, 1902, para a Índia, para arregimentar apoios, teve contato com vários políticos, líderes importantes Alguns deles impressionantes, hindus, embora num país dominado pela Inglaterra. Ele conversou, em 1901, voltando da África, com essas pessoas, e foi um choque para ele. Porque esses líderes políticos que defendiam a independência da Índia, se comportavam como reis, muito distantes do povo. Ele diz que no congresso em que ele estava, em 1901, o local destinado aos delegados intocáveis era uma choupana, completamente afastada, totalmente separada. Havia separação para cada um dos segmentos e o que mais o chocou foi a choupana onde ficavam os intocáveis, delegados do congresso. Ele foi lá ver, ficou horrorizado. Então pegou a vassoura e foi limpar a latrina. Foi uma coisa escandalosa para os não-intocáveis. E fez uma observação interessante de que se o congresso demorasse mais de cinco dias, certamente haveria epidemias, tais eram as condições de insalubridade. Então o choque foi o choque das diferenças de tratamento, essa desigualdade brutal face a face, da atitude de personalidades da Índia com as quais ele teve contato em 1901.
Lá pelo ano de 1921, 1922, participou de outro congresso. Aí, vinte anos depois, já era liderança reconhecida. Tendo certo prestígio, mas ainda em estágio de formação, nesse congresso e apresentou moções. Sintomaticamente moções sobre o modo como deveria ser feita a política, que eram uma moção da não-cooperação e outra moção da não-violência. Foram aprovadas por unanimidade, mas ele ficou insatisfeito porque não havia discussão. Os líderes já acordavam previamente quais as moções que iriam ser aprovadas e as que não seriam. Mesmo assim, não desistiu da participação, e inclusive foi convidado para ser um dos redatores da reforma do estatuto do partido. Uma tarefa bastante burocrática, que assumiu como um aprendizado. Mas a história política dele era do contato cada vez mais íntimo com o povo. Essa sempre foi a vocação dele na política hindu, e a sua diferença em relação às outras lideranças da época.
Assim, quando se observa as idéias mais importantes, tanto nesse livro, como em outro livro traduzido pela Associação Palas Athenas, O Caminho é a Meta – Gandhi Hoje, do Johan Galtung, as idéias eram políticas, embora nem sempre vistas como idéias políticas. E se destaca a predileção que ele tinha pelo diálogo religioso De tradição hindu, embora não muito ortodoxo, tinha contatos com o jainismo, com o sikhismo, junção de princípios hindus e muçulmanos. O diálogo dele, tanto em direção ao oriente, quanto, principalmente, em direção ao ocidente, com o islã, com o cristianismo, era intenso. Tinha uma ampla capacidade de diálogo e se interessava sinceramente. O estágio na Inglaterra e depois na África e o contato com várias correntes cristãs foi bem aproveitado. Do islamismo ele tinha bom conhecimento e com os teosóficos teve uma troca de participação e militância. Portanto, Gandhi era uma pessoa bastante aberta e via nesse debate ecumênico uma forma de expressão desse diálogo da unidade homem/homem e da ligação com o divino. Talvez a religião hindu, pela sua variedade, tenha essa capacidade e isso explica um pouco essa vocação de centro ecumênico que a Índia sempre foi. Isso é uma coisa muito importante na política. Parece religião, mas é política. Como ele mesmo diz. Não existe separação rígida entre a religião e a política. O difícil é quando a religião manda na política, aí estamos em dimensão diferente.
A outra coisa importante era a relação que Gandhi tinha com o sistema de castas da Índia, que até hoje é problema, passados já sessenta e tantos anos. Além de vir de longuíssima data, o sistema de castas é altamente verticalizado. Congela as pessoas, condena as pessoas a serem da casta onde nasceram, é vertical, no prestígio e em sofrimento. Ele, reformista e gradualista, muito prático como sempre foi em tudo, propunha uma horizontalização das castas. Admitia que podia continuar havendo as castas, mas a verticalização deveria deixar de existir. Argumentava que o fato da pessoa estar na classe a, b, c, d ou e não deveria ser critério nenhum de hierarquia entre o “a” e o “e”, devendo ter igualdade de possibilidade de progredir, sem muita ansiedade de ficar tentando uma mobilidade, a todo custo, de uma casta para outra. Então, pode-se achar que era uma pessoa reformista. E era. Mas, na época, isso era uma verdadeira revolução, porque na prática era uma transformação total. A horizontalização contra a verticalização das castas era uma proposta incrivelmente profunda e que mudaria, no longo prazo, o próprio sistema de castas. Então, mostra, ao mesmo tempo, a ligação que ele tinha com o passado e a visão que ele tinha de futuro. Uma visão gradualista. Uma questão interessante é que ele foi expulso da casta dele, quando foi para a Inglaterra para estudar.Mas a família continuava com prestígio, o pai dele era uma pessoa de prestígio ...
Outra questão importante é que a caracterização ideológica dele é uma coisa dificílima. Os marxistas, por exemplo, julgavam Gandhi contra-revolucionário, reacionário, agente do colonialismo inglês. Porque, na medida em que ele não favorecia a revolução zás-trás, vamos dizer assim, como os marxistas sempre preferem, revolução do assalto ao Palácio de Inverno, que muda da noite para o dia, eliminando a outra parte e pondo outra elite no lugar, achavam que ele era um contra-revolucionário, com aquela posição gradualista, reformista. Porque dialogar com a Inglaterra é como dialogar com a Casa Branca. A Inglaterra era um Império onde o sol nunca se punha. Era a própria expressão do colonialismo, o império maior que já houve, em todas as épocas. E Gandhi sempre com aquela posição, muito firme nos princípios, mas disposto a discutir cada avanço que era possível ser dado no momento, principalmente afastando o ator da estrutura. Ele nunca tratou os dirigentes ingleses, pessoalmente, como se eles nunca pudessem se libertar daquela estrutura de dominação. Isso é uma coisa muito diferente. Ele era uma pessoa profundamente revolucionária, hoje vejo assim, dessa minha nova fase, socialista ainda, mas não mais marxista. Ele era mais revolucionário do que o Lenine. E, aliás, isso explica porque ele é hoje muito mais presente no dia-a-dia do mundo do que o próprio Lenine, que era considerado o papa de todos os revolucionários. Mais revolucionário do que Trotsky, do que o próprio Mao Tsé Tung, que conduziu o processo na China, vizinha da Índia, embora com algumas semelhanças, não na questão da violência, mas na ênfase no campo, na autonomia dos camponeses. Gandhi é muito mais atual, ele tem muito mais futuro como revolucionário, vamos dizer assim, do que Lenine, Mao Tsé Tung, Trotsky, Che-Guevara e outros dessa linhagem. É isso que nós vamos ver cada vez mais no mundo, a importância dele.
Alem do gradualismo e dessa profundidade da meta, que nunca acaba, ele queria elevar todos à condição de santos, na prática. É uma mudança profunda, porque é a maior de todas, porque é a própria mudança do homem e da mulher, de si próprio. É um universo tão grande quanto o das galáxias. Cada um de nós é um universo tão grande como o universo todo. Ele queria mudar o universo e, no entanto, tinha os pés muito assentados no chão. Então, por isso, a estratégia dele de ir pelas aldeias. Aliás, muito semelhante a Tolstoi e Toureau, que eram homens que ele admirava, Tolstoi na Rússia e Toureau nos Estados Unidos. A revolução tolstoista partia dos mujiques. Aliás, os marxistas-leninistas tentaram muitas vezes recrutar Tolstoi, mas nunca conseguiram. Tolstoi sempre foi dos camponeses, do campo, uma mudança de baixo para cima, considerada uma mudança mais próxima dos anarquistas do que dos socialistas-marxistas ou dos revolucionários burgueses e nacionalistas. Gandhi tinha essa visão da necessidade de que as aldeias formassem uma espécie de confederação oceânica e que com autonomia cada vez maior se relacionassem entre si e que, de baixo para cima, dessem a solidez e a independência de um país muitas vezes secular como a Índia. Então, essa era a política dele.
Outra característica interessante é que Gandhi tinha alguns insights dessa questão do desenvolvimento sustentável, dessa questão do verde. Porque ele dizia muito bem que se nós tivermos um consumo equilibrado vai dar pra todo mundo. Não é suficiente para todos porque há quem consome demais e gente que consume de menos. Se todos nós tivermos um consumo equilibrado há o suficiente para todos. Isso é a própria invenção do desenvolvimento sustentável, que a ONU lançou, reciclado, em 1992, na Conferência do Rio. Essa era outra concepção muito importante dele e que também alguns achavam que era uma posição reacionária, porque não estimulava o maquinismo, a industrialização, e através do consumo, essa loucura que a gente vive hoje - a busca de um consumo cada vez mais acirrado. Como ele dizia e também hoje há o suficiente para todo mundo, o problema é a má divisão. Essa é uma posição muito destacada na política dele.
Portanto, mais anarquista, mais gradualista, mais, na meta, revolucionário, e verde, embora sem nem saber que era verde. E, é claro, a questão da não-violência, que é uma posição política totalmente revolucionária também. Porque a vida que o homem viveu desde que saiu das cavernas é a da violência. Jesus colocou coisas desse tipo. Buda também. Mas Gandhi traduziu, do ponto de vista político, aproveitando experiências como de Cristo, como de Buda, mas numa época bem mais nossa, Gandhi traduziu isso para a nossa época. E suas idéias na política para superar a violência continuam válidas e cada vez mais com chances de serem aplicadas.
E esse conceito da não-violência tem uma formula prática. Foi Gandhi que inventou a satiagraha, que é a força da verdade, como um método político de expressar como a não-violência pode ser aplicada no dia-a-dia. Ele criou, institucionalizou, experimentou, errou, corrigiu, foi prá lá, foi prá cá, e, praticamente, criou um método político de não-violência que, hoje, é usado por muitos políticos no mundo inteiro.
Assim, vendo-se a síntese do Galtung e a própria autobiografia de Gandhi até 1925, eu colocaria como três grandes idéias do Gandhi na política, na época dele e na nossa.
A primeira é a não-violência e o método de satiagraha de como transformar, pela força da verdade, uma situação de conflito numa situação de entendimento superior. Porque isso é tudo o que ele quer, um entendimento superior. Ele não quer uma negociação, um toma lá – dá cá, para fazer um acordo entre A e B, que inclusive muitas vezes negocia princípios. Ele quer o crescimento dos dois lados, ou dos três, porque às vezes ele entrava de mediador, então o crescimento era do ator A, do ator B e dele, da turma dele, como mediadores em direção a uma integração, a um crescimento, às vezes até a criação de uma nova posição, de uma proposta que não existia. Galtung chama isso de transcendência. É uma invenção nova, que é a coisa mais importante na política, é você inventar saídas em situações difíceis de conflitos, e o político, o partido político, a força política, a força social, ter capacidade de criar uma posição nova para onde possam migrar posições conflitantes e as duas posições possam crescer. Essa é uma questão fantástica, a própria essência, a mais alta função da política Transitar, não como se fosse um negócio, a compra de um cavalo ou de um burro, mas para a criação de uma posição nova.
A segunda, é a autoconfiança ou autonomia, chamada de swadeshi, que é a necessidade de que as forças sociais tenham o máximo possível de independência. Isso tem um viés anarquista muito forte. Gandhi quer que as pessoas, as classes, os grupos, as aldeias, os países, não só a Índia, tenham autoconfiança e autonomia, dependam o menos possível de outras forças e possam viver. E para isso é necessária uma vida o mais simples possível, para não ficar dependendo de coisa de outros, que a pessoa não consegue produzir, não consegue ter. Esse é o outro elemento chave, junto com a não-violência, a autonomia, a autoconfiança.
E o terceiro elemento, que é a autopurificação dele próprio e de todos os que estão envolvidos no conflito. Esse é o mix político de Gandhi. Ele propunha na política a autopurificação, dele e de todos os que participam, o caminho em direção à autonomia, para você ser o menos dependente possível, passa por ser uma pessoa o mais completa possível, uma sociedade mais completa possível e a não-violência como o método.
Um aspecto onde se exprimem as posições de Gandhi da não-violência, da autonomia ou autoconfiança e da autopurificação, é a escolha dele pelo vegetarianismo. É uma tradição hindu muito forte, mas nem todo mundo na Índia é vegetariano. Mas o vegetarianismo de Gandhi é um elemento político. Quando se discute hoje o desenvolvimento sustentável, você vê como o fato de ser vegetariano ou, pelo menos, quase vegetariano, adotando a postura gradualista do Gandhi, quase vegetariano, é importante. Mas o vegetarianismo dele expressa muito bem a autonomia, a não-violência e o desenvolvimento sustentável É uma posição atualíssima Ele defendia de forma consciente a posição vegetariana como um elemento político. E é mesmo. Quando hoje se discute o desenvolvimento sustentável, você vê como a questão de ser vegetariano, ou quase vegetariano, é uma posição atualíssima, do ponto de vista dos três elementos – autonomia, autopurificação e não violência – e do desenvolvimento sustentável, porque é uma forma de produzir melhor, destinar melhor as terras e a produção para poder satisfazer todo mundo, no mundo inteiro. Já existem cálculos mostrando que isso seria possível se as terras fossem mais dedicadas à produção vegetariana do que a carnívora.
Há também a questão da independência da Índia. Ele fazia parte desse movimento, mas fazia parte de uma maneira muito peculiar, que, às vezes, as pessoas não se dão conta. Parece que ele era um líder nacionalista como outros tantos, comuns na época dele, Sukarno na Indonésia, Bembela na Argélia, Nasser no Egito, e outros, mas ele tinha uma característica muito diferente de aplicação dos princípios da autonomia, da autopurificação e da não-violência no processo de independência da Índia. E a independência da Índia não é pouca coisa porque ela era a jóia da coroa inglesa. De todas as colônias, era a colônia-chave. Retirada, quebrava o império inglês, como quebrou. E ele diante de uma luta tão crucial para o mundo todo, pois se estava mudando um sistema colonial imperialista, do qual a Inglaterra era o paradigma, defendeu que era possível ter um entendimento com o centro do império. E muitas vezes, ele defendeu que a Índia e a Inglaterra continuassem ligadas numa comunidade, onde as nações tivessem os mesmos direitos e deveres. Chegou a defender, para desespero dos radicais da época, que era possível e que era bom para a Índia, para a Inglaterra e para o mundo, um entendimento entre a Inglaterra e a Índia, e que os dois pudessem continuar ligados, mas como pares, como iguais. Essa posição é profeticamente correta. Mas, infelizmente o movimento de descolonização, tanto do lado dos oprimidos como dos opressores, não tomou essa posição em lugar nenhum e, até hoje a gente vive as conseqüências da independência usando o método tradicional da violência contra a violência. Depois, com o avanço da violência e da repressão dos ingleses, Gandhi aderiu a independência total. O entendimento talvez tivesse mudado a história recente, se tivesse acontecido, se a Inglaterra e as lideranças hindus, que estavam com ele, tivessem tido essa clarividência. Preferiram, tanto a Inglaterra como as lideranças que estavam na luta pela independência, aquela separação, inclusive com a criação absurda do Paquistão, que foi uma coisa traumática, desastrosa para a independência, que foi motivo de desgosto tremendo para Gandhi e de certa forma o motivo da morte dele, pois ele foi acusado pelo nacionalista hindu que o assassinou de ser tolerante demais com os muçulmanos.
E, finalmente, a questão que eu acho, do ponto de vista prático da política atual, a proposta mais radical, mais utilizável do Gandhi, que é o conceito da simplicidade voluntária. Também algumas pessoas já falaram disso. São Francisco já falou da opção pelos pobres, de forma divina, quase. Mas a proposta do Gandhi da simplicidade voluntaria é muito mais atual do que a de São Francisco, porque ela é compatível com o gradualismo do avanço em todas as classes sociais, porque ela é uma reforma gradual. Você pode ir em direção à simplicidade voluntária, pode ser uma dona de casa, operária, ou até um burguês comum, que podem convergir em direção à simplicidade voluntária. E esse é um conceito essencial do ponto de vista do desenvolvimento sustentável hoje. Talvez Gandhi não soubesse disso, a ONU também não reconhece isso. Mas a simplicidade voluntária é o único conceito político capaz de tirar totalmente do papel o conceito de desenvolvimento sustentável, que é o equilíbrio entre o econômico, o social e o ambiental, que a ONU propõe para a gente, no século XXI. É essencial essa convergência das várias classes sociais em direção à simplicidade voluntária. É um conceito de grande profundidade e atualidade.
Quero concluir fazendo dois comentários sobre a importância política mundial e no Brasil dessas idéias políticas do Gandhi.
No cenário mundial essa idéia e principalmente essa iluminação que ele teve da possibilidade de convivência numa comunidade de iguais da Inglaterra e Índia, que infelizmente não progrediu, é, até hoje, o conceito político mais importante, uma forma de transcender a globalização comandada pela economia como essa que nós estamos vivendo hoje no mundo inteiro. Essa globalização tem vários aspectos, positivos e negativos, mas ela tem um aspecto altamente negativo que é o comando da globalização pelo fator econômico, pelo fator capital, pelo fator do livre mercado. E a visão de Gandhi de certa forma é antecipada um pouco pela União Européia, no âmbito restrito da Europa, mas já algo desse tipo. A possibilidade da convivência entre iguais e nações numa espécie de confederação mundial de nações, da qual a ONU seria a base, que o homem conseguiu construir até hoje, é o conceito mais importante político hoje, do ponto de vista da política internacional, porque as alternativas a essa evolução de uma confederação, de um parlamento mundial, de uma convivência entre iguais, de uma ONU cada vez mais democrática e mais eficiente nas suas políticas, quais são? A primeira, que se vislumbrou quando a União Soviética quebrou, é a hegemonia de um império único novamente, um império da Casa Branca, dos Estados Unidos. E o mundo controlado pelo império sediado na América do Norte. A outra via, que agora parece mais realista do que um império controlado incontrastavelmente pelos Estados Unidos – parece que nem recursos mais tem para isso - é a divisão de blocos. E que blocos? E para onde caminha e tem caminhado na época moderna essa política de blocos? Essa política de blocos deu duas grandes guerras mundiais. Uma e duas! A política de blocos hoje caminha para ter os Estados Unidos, talvez tendo aliados históricos nos países da Comunidade Européia. A Rússia, a Índia e a China cada vez mais poderosas e fazendo valer o seu peso econômico e populacional, caminhando para uma definição que pode ser um ou dois blocos. E também um bloco irredutível, que vem ainda de uma relação colonial deteriorada, que é o bloco do Islã. Então vejam que ambiente altamente inflamável que é essa segunda possibilidade. A primeira possibilidade seria a submissão aos Estados Unidos, comandando e oprimindo o mundo inteiro social e economicamente. A segunda é a divisão em blocos, blocos sociais e comerciais, que são a ante-sala da guerra. É a guerra comercial que pode transitar em direção à guerra propriamente dita, a qualquer momento. Os Estados Unidos, o ocidente chamado cristão, comandado pelos anglo-saxões, anexando nós latinos, na rabeira. A Rússia, a China e a Índia. E o Islã que tem luz própria também. Vejam o que está acontecendo nesse conflito entre a China e o Japão por causa de cinco ilhotas que não têm nada, cinco penhascos. Para quê esse tipo de ensaio, de mostrar as garras, entre a China e o Japão, que faz parte do bloco dos Estados Unidos, americano, embora seja um país oriental, em torno de cinco penhascos que nada valem? Isso é um ensaio, afirmação de autonomia, no sentido antigo da autonomia. A terceira alternativa é a da construção da confederação das nações, onde todos esses blocos, os países de força intermediária e principalmente os pequenos países, as pequenas nações, os pequenos povos, pudessem todos conviver e serem protegidos nesse governo mundial. Alguns acham que o governo mundial é uma coisa totalitária, que vai estar sediado seja nos Estados Unidos, ou na Rússia, ou na Europa, que vai mandar em todos nós. É o contrário. Se você constrói um governo mundial democrático com respeito pelas minorias e a possibilidade dos pequenos, dos mais fracos, dos mais frágeis sobreviverem, terem as suas culturas, que é o que interessa, a forma de viver, que é o essencial, preservada e terem chance de sobreviver. Caso contrário, na alternativa um ou dois, todos eles desaparecerão, serão varridos do mapa, submetidos ao país-império ou aos blocos mais fortes pelo mundo afora. Essa questão Gandhi vislumbrou e é, sob meu ponto de vista, uma questão chave, para onde vamos caminhar ou não, todos os países, inclusive nós. Ou vamos apostar que vamos entrar para esse clube da China, da Índia e da Rússia, por exemplo, como parece que alguns dirigentes nossos de Brasília apontam? Nosso país, que é um país intermediário entre esses grandes países e os países de menor força política e econômica, tem uma responsabilidade muito grande nesse processo.
A outra questão importante da política mundial é o desenvolvimento sustentável, como a ONU propôs a partir do Encontro no Rio. Novamente as idéias do Gandhi, a autonomia, a simplicidade voluntária, são de grande valia. Porque não é fácil o que a ONU está propondo para a gente. A ONU está propondo que você equilibre o fator econômico, o fator social e o fator ambiental. Isso parece uma coisa óbvia, mas nem o capitalismo nem o socialismo, durante 200 anos, no mundo inteiro, fizeram isso. Eles trabalham o econômico e o social. Um mais o econômico, outro mais o social. E ambiental nada. O ambiente é visto como um saco sem fundo, do qual você pode sacar a vontade, porque está lá a nossa disposição. Então a ONU propõe que se equilibre os três fatores. É uma mudança completa em relação ao capitalismo e ao socialismo. Novamente aquelas idéias do Gandhi dão uma base muito firme para se caminhar em direção ao desenvolvimento sustentável. São os dois fatores de atualidade na política internacional das idéias do Gandhi: o desenvolvimento sustentável e a possibilidade da convivência entre as nações, grandes, medias, pequenas, muito pequenas. Eu insisto na questão da Comunidade Européia porque vejo como uma experiência muito importante, inclusive, não sei se dando crédito ao Gandhi, mas eles usam o princípio da subsidiariedade, que é fazer no nível local tudo o que puder fazer e dar uma autonomia ao nível local. Isso é uma coisa muito importante da Comunidade Européia que tem possibilitado inclusive diminuir as tensões entre vários pequenos grupos étnicos, que estavam submetidos a nações artificiais que existem na Europa e que hoje, ficam protegidos pela Comunidade Européia, vislumbrando a possibilidade de uma vida mais autônoma. É o caso da Espanha, por exemplo, que pode se dividir em cinco. A Cataluña está ensaiando novamente essa disputa, mas para a Cataluña ficar na Espanha, tendo um relacionamento maior com a Comunidade Européia, pode ser suficiente para manter sua autonomia local. Isso pode dar uma estabilidade muito grande ao relacionamento entre as nações.
Finalmente, no caso do Brasil, a questão do desenvolvimento sustentável é vital, como no mundo, porque nós temos sob nossa guarda importantes recursos da humanidade, como é a Amazônia, patrimônio da humanidade. O Gandhi tinha um princípio, pouco compreendido e que talvez os indianos saibam explicar melhor, que era a fiduciariedade. Isto é, o capitalista, o proprietário, tem seus bens como se fosse um fiel depositário. O proprietário poderia continuar gerindo, se fosse um bom gestor, mas seu patrimônio era, na verdade, um bem da humanidade, que estava sob sua responsabilidade. Essa era outra diferença como os marxistas, que queriam desapropriar tudo, estatizar tudo. Gandhi pensava que não. Que o patrimônio podia ficar com os capitalistas desde que eles cuidassem de forma responsável e econômica dos bens que estavam sob sua responsabilidade. De certa forma é o que acontece com a Amazônia e conosco, para desespero dos nacionalistas, dos militares. A Amazônia é um patrimônio da Humanidade sob nossa fiduciariedade, queiramos ou não. Não adianta arreganhar os dentes. O Brasil tem um papel importante no conceito de desenvolvimento sustentável, tem chance importante de influenciar a política. Tem mostrado isso nos encontros da ONU. O Brasil tem tido um papel muito importante, para o bem e para o mal. Quando o Brasil tem posições avançadas ele ajuda a puxar na ONU consensos mais avançados. Mas também quando recua, ajuda retrocessos.
Outra questão que eu aponto como importante no Brasil e que teria um peso mundial, é se o Brasil desistisse dessa invenção, principalmente da revolução francesa, do exército nacional. Porque isso é, atualmente, um enorme desperdício de recursos. Hoje um trilhão e setecentos bilhões no mundo inteiro são desperdiçados em exercícios militares de exércitos nacionais e imperialistas pelo mundo afora. Alguns países, como a Costa Rica, já mostraram que podem lucrar muito em abandonar esse tipo de estrutura. Mas, é claro, a Costa Rica fez isso porque estava sob o guarda-chuva dos Estados Unidos. No entanto, o Brasil poderia evoluir para uma posição muito mais avançada, reduzindo progressivamente suas Forças Armadas e os gastos que tem com isso e destinando esses recursos para aplicar na reforma agrária, na saúde, na educação, etc. E defendendo, na ONU, uma Força Internacional de Paz, não controlada, evidentemente, pelos países mais fortes, mas democraticamente controlada. Essa posição do desarmamento progressivo e construção de Forças de Paz dentro dos países acoplada com uma Força Internacional de Paz Planetária, é uma idéia que o Brasil está numa posição privilegiada para defender. Quem é que nos ameaça? Para que precisamos gastar recursos com jatos militares, submarinos, porta aviões, que ficam circulando, gastando combustível e emitindo gases de efeito estufa de forma despudorada como a gente faz? Não tem sentido um monte de quartéis no Rio Grande do Sul, que estavam lá para nos “proteger” dos argentinos. Eles não nos ameaçam, a não ser no futebol. Não tem mais sentido.
E finalmente, a questão da simplicidade voluntária aplicada aqui no Brasil. Isso não é alheio à nossa cultura cristã. Nós temos condição de lançar pontes com a nossa cultura cristã, tem muitas coisas do cristianismo onde essa visão tem raízes e que teria um papel fundamental na evolução do desenvolvimento sustentável e na divisão dos recursos para que a gente tivesse um país com necessidades básicas, serviços básicos, salário máximo e mínimo próximos. Assim teríamos condições de ter um país mais equilibrado, se houvesse forças políticas onde o conceito da simplicidade voluntária fosse um princípio político chave. E não venham dizer que isso é coisa de igreja. Vamos voltar ao Gandhi: a religião tem a ver com a política, o que não pode é a religião mandar na política. E isso, na cultura cristã brasileira, poderia ter uma força, um respaldo muito grande, se um partido político adotasse uma plataforma política com esses vários elementos: o entendimento internacional, o desarmamento para contribuir com a paz mundial e a simplicidade voluntária como a forma de viver.” -
Transcrição da palestra proferida por Carmem Sílvia Carvalho, realizada no Centro Cultural da Índia, em São Paulo, no dia 30 de janeiro de 2013, por ocasião do 65º ano da morte de Mahatma Gandhi, em sessão promovida pelo Consulado da Índia, o Centro Cultural da Índia e a Associação Palas Athena.Saiba Mais
“Boa noite. Quero começar agradecendo o convite da Palas Athena, a Lia Diskin, a honra dessa possibilidade de estar aqui conversando com vocês sobre a experiência que estamos vivendo na Fundação Casa de aplicação dos conceitos de Gandhi. Depois do Eduardo Jorge, que fez uma reflexão profunda e extensa, uma macro-reflexão, eu vou falar de micro-ações, pequenas atitudes que visam a produzir uma transformação. Então, a primeira coisa, necessária, é contextualizar o que foi a Semana Gandhi, dentro da Fundação. Todos vocês sabem que a Fundação é um espaço de muita tensão e violência. Essa violência começa antes dos meninos chegarem. Eles são fruto de uma violência social, com freqüência passam por violências pessoais, depois se tornam também violentos. Eles têm uma relação violenta dentro da Fundação, existe muita violência dos funcionários com os jovens, dos jovens entre si, dos jovens para com os funcionários, é um espaço de muita tensão e violência mas, e isso nem sempre é veiculado, é um espaço onde também existem muitas manifestações de solidariedade, muitas ações de educação, de transformação individual, de transformação social. Então, se por um lado tem uma série de situações de desrespeito aos direitos humanos, também tem uma série de situações de respeito aos direitos humanos e situações positivas.
Foi nesse cenário que eu cheguei, em novembro de 2011, e percebi que, como Gerente de Arte e Cultura, eu precisava usar o espaço que eu tinha para fazer alguma coisa pelos direitos humanos dos jovens dentro da Fundação e, para isso, eu precisava construir um plano, uma estratégia de atuação. Essa estratégia começou por uma mudança, uma articulação dos parceiros que desenvolvem as atividades de Arte e Cultura. São cinco parceiros, que atuavam isolados entre si. Então comecei a organizá-los para que tivéssemos um corpo de ação. Eles são organizações não governamentais e, portanto, são a sociedade civil dentro da Fundação, com seus olhos e a sua possibilidade de atuação lá dentro. Simultaneamente a isso, vi que era necessário modificar a relação dos Centros com a Arte e Cultura, para que houvesse algum espaço de interlocução dentro desse clima pesado e tenso da Fundação, construindo um vínculo de confiança, para que qualquer ação que viéssemos a ter pudesse ser lidada com os Centros numa perspectiva da não violência. E uma das primeiras coisas que eu observei foi que a própria forma como a gestão se relacionava com os Centros continha uma violência, no sentido do não reconhecimento da ação de quem estava na ponta. Os Centros enviavam os instrumentais sobre o que tinha sido feito e a devolutiva era apontar tudo o que eles tinham deixado de fazer, com base no preenchimento. Era só o não. O que eles tinham feito era absolutamente negado. Então eu comecei a fazer um trabalho com os técnicos da Arte e Cultura para que eles enxergassem o nosso lugar de um outro ponto de vista. Então houve toda uma mudança na leitura do instrumental, que foi um primeiro namoro e busca de modificar o padrão de relações. Ao invés de apontar tudo o que eles não tinham dado conta de preencher corretamente, os técnicos começaram a observar o que os Centros faziam e a se colocar diante dessas coisas observando o que tinha sido legal. Aquilo que não estava de acordo, por exemplo, uma Oficina que havia reunido poucos jovens, o técnico ao invés de dizer que o Centro não havia cumprido a diretriz, comentava que estava observando a dificuldade de atrair os jovens e sugeria refletir sobre o que estava acontecendo, se eram os jovens que já não queriam a Oficina, ou o educador que não estava agregando, se o Centro já havia conversado com o parceiro e de que forma desejava que a Arte e Cultura estivesse a seu lado. Assim, os Centros começaram a mudar, a dizer o que eles faziam, iniciamos uma outra interlocução.
Depois que esse espaço estava mais aberto e enquanto isso acontecia, estávamos desenvolvendo com os parceiros, em encontros, um projeto para que a gente trabalhasse a não-violência dentro dos Centros, tanto com os jovens como com os funcionários. No segundo semestre o projeto já tinha um corpo e então consideramos que era o momento de conhecer os Centros e as pessoas e que elas precisavam também me conhecer. Percorri as 11 regionais e falei com os 142 Centros da Fundação, conversando com os gestores e equipes pedagógicas, tanto das Regionais como dos Centros, de modo que aquele início de relação com os instrumentais se materializasse numa relação pessoal. Essa circulação foi muito boa. A gerencia da Arte e Cultura passou a ter corpo e voz, a ir aos locais, olhar para eles, e isso também trouxe uma série de transformações relacionais.
Em outubro, fiz uma videoconferência para todos os Centros da Fundação para contar sobre o projeto de Arte e Convivência que tinha sido elaborado com os parceiros e a Semana Gandhi foi o lançamento desse projeto. Ela não foi um fato isolado, foi um evento que coroou um trabalho que estava sendo desenvolvido. Enquanto isso acontecia, comecei outro trabalho que era de ajudar os Centros e os parceiros a estabelecerem uma relação de não-violência na resolução dos conflitos. A coisa mais comum era um educador agir de uma forma que não era a forma desejada pelo Centro. E, antes de qualquer coisa chegava um e-mail proibindo essa pessoa de entrar no Centro. Aí o parceiro ficava muito contrariado devolvia um e-mail a altura. E isso estabelecia o conflito entre eles.
Havia situações em que o educador chegava ao Centro e não cumprimentava ninguém. Em devolutiva, os Centros faziam tudo para as atividades não acontecerem. Então, havia uma tensão entre os jovens, entre os funcionários, entre os funcionários e os jovens, entre os parceiros e educadores e os Centros. E quando essas situações aconteciam, comecei a fazer círculos de diálogo, para resolvê-las, buscando esclarecer que o que estava acontecendo não era uma situação única, que desentendimentos já tinham acontecido antes e que eu queria sentar todos à mesa não para conversar sobre o fato em si, mas usando o fato para pensarmos em conjunto formas melhores de lidar com os conflitos, mais produtivas, menos sofridas para todas as partes.
Isso tem sido uma experiência de uma grande riqueza. Para isso colocamos juntos: o parceiro, a regional, eu e o técnico responsável pela regional onde o fato aconteceu. Esses círculos têm aberto a possibilidade dos Centros aprenderem a lidar com os conflitos de outra forma. E isso já tem trazido uma série de resultados, inclusive de Centros e parceiros começarem a chamar, a pedir ajuda para fazermos essa mediação, que tem sido muito importante e rica.
Então, foi nesse contexto, em que houve a mudança dos instrumentais, a aproximação da Arte e Cultura com os Centros, esse encontro para a mediação de conflitos, que foi lançado o projeto Arte e Convivência e a Semana Gandhi. Eu propus a Semana como um convite. Queria que os Centros e parceiros participassem voluntariamente, para que tivessem interesse e real adesão à proposta. Que fosse uma participação voluntária. Não foi colocado como uma obrigação. Penso, no entanto, que fiz o convite um pouco em cima da hora, considerando que a organização dentro dos Centros não é simples. Mesmo assim 27 Centros aderiram e produziram trabalhos para a Semana Gandhi. Quando fiz o convite, fiz a proposta bastante aberta: que o lançamento do projeto e a Semana Gandhi fossem um espaço de convivência, onde os jovens, os funcionários das diferentes áreas dos Centros e os parceiros pudessem realizar alguma coisa em arte e cultura em conjunto. O fazer com era o grande pedido. Sem nenhuma outra regra. Cada Centro poderia fazer como achasse melhor, buscando vivenciar a experiência de fazer junto e perceberem a possibilidades dessa convivência.
Apareceram trabalhos muito interessantes. Participaram 661 jovens, funcionários das diferentes áreas, desde os funcionários operacionais, que normalmente são excluídos de tudo, os agentes de apoio socioeducativos, os parceiros. São sempre mundos diferentes – o da limpeza, o da segurança, o pedagógico, o psicossocial. Os Centros de Gestão Compartilhada, que são administrados e tem o trabalho socioeducativo desenvolvidos por ONGs, todos entraram e cada um pensou o que escolhia da mensagem de Gandhi para ser compartilhado. Apareceram coisas muito bonitas e variadas. A Semana Gandhi virou o Mês de Gandhi, novembro inteirinho eles desenvolveram os trabalhos. Muitos Centros assistiram e discutiram o filme da vida de Gandhi, outros leram trechos de sua obra, leram contos indianos, contadores de histórias foram participar, foram feitas muitas palestras sobre os temas de Cultura de Paz e da vida de Gandhi, muitos grupos de discussão com funcionários e jovens, atos ecumênicos, grafites nos muros sobre a paz, peças de teatro, jovens fizeram músicas sobre a paz, danças celebrando a paz e a não violência, colagens, murais, aulas de hip-hop, skates. Houve uma diversidade muito grande de ação. O interessante de deixar livre é isso. Cada um foi criando a partir de sua experiência. Eu trouxe alguns trabalhos para mostrar, como o da Casa Guarujá, que produziu muitas coisas, culminando com uma projeção no chão da imagem do Gandhi que foi sendo preenchida com materiais de reciclagem e depois ficaram surpreendidos com o maravilhoso efeito obtido. Vejam um depoimento: “O dia foi maravilhoso e repleto de alegria. Os jovens entenderam muito bem o trabalho do Gandhi e consideraram o líder um exemplo a ser seguido.” Na Casa Taubaté eles fizeram uma série de ações e o depoimento que escolhi foi o seguinte: “Gandhi – a confiabilidade no seu eu. Enfatizamos a participação efetiva e entusiasmada dos jovens nessas atividades, sobretudo na convivência com o outro, a relação positiva entre seus pares, o ganhar e o perder como uma premissa de aprendizado para a vida”. No Centro Itaquera, onde fizeram também muitas coisas, e ao final tiveram uma aula de skate. O Centro ressaltou “o uso da não-violência como uma forma de gerir conflitos por meio do diálogo.” Essa foi a principal reflexão passada para os mais de 90 adolescentes e funcionários. Na Casa Franco, entre outras atividades, foi construído um grafite na parede, e a reflexão foi de que “a atividade tocou os jovens, fazendo-os expressar a gratidão por terem podido vivenciar essa experiência, por terem conhecido a vida do Gandhi, discutir os ensinamentos dele e de materializarem no grafite as coisas que puderam aprender e discutir. Sentiram-se felizes e úteis ao fazer a discussão”. Na Casa Iaras foi produzido um rap, chamado Paz uma realidade distante, no qual vão analisando não só para eles, mas na sociedade, no mundo, o quanto essa paz ainda está distante. Na Casa Madre Teresa de Calcutá, o evento foi chamado “Em busca da paz” e o depoimento foi de que “nós procuramos despertar o imaginário e a imaginação criativa dos jovens para que eles trouxessem à tona os seus sentimentos e conhecimentos sobre o tema da paz. Reafirmamos conceitos baseados em valores de respeito às diferenças e, sobretudo, a promoção da tolerância em todos os níveis das relações sociais.” Na Casa Sertãozinho, a partir da obra “Operários” da Tarsila do Amaral, os jovens e funcionários fizeram todo um trabalho de construção de máscaras e de móbiles. Por meio desse trabalho buscaram representar a pluralidade cultural do público da Fundação e a união, pelos móbiles, significando “o sentimento de unidade, no seu sentido mais amplo, que só será alcançado a partir do momento em que houver respeito às individualidades.” Vejam um depoimento de um adolescente da Casa Sertãozinho: “enquanto eu fiz me veio um pensamento na cabeça: a paz. Eu me senti mais alegre, conversando bastante e mostrando um pouco do talento que nós temos. Ninguém ficou parado. Como mensagem eu gostaria de falar para que o mundo não tenha discriminação, que todos sejam livres e que tenham muita paz para o resto de suas vidas”. Na Casa Rio Novo eles fizeram um painel a partir da discussão sobre a vida do Gandhi e escreveram “O amor é a arma irresistível que há entre os homens.” Na Casa Mauá fizeram um grafite lindíssimo para estimular uma mudança de mentalidade da atual agressividade, para uma mudança de olhar: “Um novo olhar para o amor, a generosidade, o afeto, o perdão, o respeito mútuo e a tolerância”.
Estimular servidores e adolescentes a adotarem o diálogo como prática pacificadora, a fim de construir um ambiente harmonioso e sustentável. O Centro Turiaçu trouxe a conclusão de que apesar desse trabalho com o grupo Palas Athena, já ter sido realizado no Centro outras vezes, o projeto teve nessa última turma o seu melhor desempenho, pois os adolescentes se mostraram mais interessados, participativos e integrados “A grande diferença se deu também pela Palas Athena ter desenvolvido o mesmo projeto voltado para o corpo funcional em meados de julho.” Acho que isso é essencial. É preciso trabalhar a possibilidade de relações não-violentas entre os jovens, mas, sobretudo trabalhar essas relações também com o funcionários.
Os desdobramentos continuam. O projeto Arte Convivência começou a ser desenvolvido e as Oficinas de Arte e Cultura estão trabalhando essa possibilidade da não-violência por meio da arte, de outra forma de conviver. As rodas de diálogo que antes eram propostas por mim, começam a ser propostas pelos outros. Isso é uma mostra de que circulou na rádio peão que vale à pena, mostra a efetividade da possibilidade dessa relação. E começaram a aparecer em Centros e Regionais outros projetos autônomos de Cultura da Paz. Então, esse gérmen que foi lançado pelo Arte Convivência está semeando e difundindo e é a partir dessa experiência que vai ficando provado que é possível em um espaço como a Fundação Casa, tão impregnado de dor, de tensão, de violência, discutir a possibilidade de relações não-violentas. Isso é possível e necessário. Termino, assim, com uma frase do Gandhi de “olhar o outro com olhar de confiança, um olhar luminoso, e ele verá toda a sua pessoa cheia de luz.” Obrigada -
O que é?Saiba Mais
A Comunicação Não-Violenta (CNV) é um processo conhecido por sua capacidade de inspirar ação compassiva e solidária. Ensinada há mais que 40 anos por uma rede mundial de mediadores, facilitadores e agentes voluntários, fundada pelo psicólogo Dr. Marshall Rosenberg, a CNV está sendo utilizada em cada nível da sociedade por um crescente numero de pessoas que desejam intervir e agir com meios práticos e eficazes em favor da paz.
Como funciona?
A CNV parte da observação de que a crescente violência que nos cerca e na qual estamos inseridos é reflexo de uma lógica de ação e relação divorciada de nossos verdadeiros valores. Através de uma série de distinções precisas, o trabalho revela como as formas culturais predominantes de nos comunicarmos, com nós mesmos e com os outros, levam-nos a entrar em choque com colegas, familiares e pessoas com opiniões ou culturas diferentes, e assim iniciar ciclos de emoções dolorosos. Eminentemente prático, o processo oferece alternativas claras aos confrontos em que ficamos presos e à lógica destrutiva da raiva, punição, vergonha e culpa.
No coração da Comunicação Não-Violenta está a dinâmica que dá fundamento à cooperação – nós seres humanos agimos para atender necessidades, princípios e valores básicos e universais. Com a consciência que esta constatação nos fornece, passamos a enxergar a mensagem por trás das palavras e ações dos outros, e de nós mesmos, independente de como são comunicadas. Assim, as críticas pessoais, rótulos e julgamentos dos outros, seus atos de violência física, verbal ou social, são revelados como expressões trágicas de necessidades não atendidas.
Além de uma abordagem de clareza e mediação pessoal, a CNV possibilita mudanças estruturais no modo de encarar e organizar as relações humanas (gestão de grupos e organizações) e na questão da responsabilidade, diminuindo a chance de agressões ou dinâmicas de grupo opressoras.
A Comunicação Não-Violenta foi usada primeiramente em projetos federais do governo americano a fim de integrar de forma pacífica escolas e instituições públicas durante os anos sessenta. Ao longo dos últimos 40 anos o Dr. Rosenberg e sua equipe criaram sistemas de apoio à vida nas relações intra - e interpessoais, com administradores escolares, professores, profissionais de saúde, policiais, mediadores, sistemas jurídicos, gerentes de empresas, detentos e guardas, líderes religiosos judeus, cristãos, budistas e muçulmanos, autoridades governamentais e outros, em mais de 50 países.
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