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Transcrição da palestra proferida por Carmem Sílvia Carvalho, realizada no Centro Cultural da Índia, em São Paulo, no dia 30 de janeiro de 2013, por ocasião do 65º ano da morte de Mahatma Gandhi, em sessão promovida pelo Consulado da Índia, o Centro Cultural da Índia e a Associação Palas Athena.
“Boa noite. Quero começar agradecendo o convite da Palas Athena, a Lia Diskin, a honra dessa possibilidade de estar aqui conversando com vocês sobre a experiência que estamos vivendo na Fundação Casa de aplicação dos conceitos de Gandhi. Depois do Eduardo Jorge, que fez uma reflexão profunda e extensa, uma macro-reflexão, eu vou falar de micro-ações, pequenas atitudes que visam a produzir uma transformação. Então, a primeira coisa, necessária, é contextualizar o que foi a Semana Gandhi, dentro da Fundação. Todos vocês sabem que a Fundação é um espaço de muita tensão e violência. Essa violência começa antes dos meninos chegarem. Eles são fruto de uma violência social, com freqüência passam por violências pessoais, depois se tornam também violentos. Eles têm uma relação violenta dentro da Fundação, existe muita violência dos funcionários com os jovens, dos jovens entre si, dos jovens para com os funcionários, é um espaço de muita tensão e violência mas, e isso nem sempre é veiculado, é um espaço onde também existem muitas manifestações de solidariedade, muitas ações de educação, de transformação individual, de transformação social. Então, se por um lado tem uma série de situações de desrespeito aos direitos humanos, também tem uma série de situações de respeito aos direitos humanos e situações positivas. Foi nesse cenário que eu cheguei, em novembro de 2011, e percebi que, como Gerente de Arte e Cultura, eu precisava usar o espaço que eu tinha para fazer alguma coisa pelos direitos humanos dos jovens dentro da Fundação e, para isso, eu precisava construir um plano, uma estratégia de atuação. Essa estratégia começou por uma mudança, uma articulação dos parceiros que desenvolvem as atividades de Arte e Cultura. São cinco parceiros, que atuavam isolados entre si. Então comecei a organizá-los para que tivéssemos um corpo de ação. Eles são organizações não governamentais e, portanto, são a sociedade civil dentro da Fundação, com seus olhos e a sua possibilidade de atuação lá dentro. Simultaneamente a isso, vi que era necessário modificar a relação dos Centros com a Arte e Cultura, para que houvesse algum espaço de interlocução dentro desse clima pesado e tenso da Fundação, construindo um vínculo de confiança, para que qualquer ação que viéssemos a ter pudesse ser lidada com os Centros numa perspectiva da não violência. E uma das primeiras coisas que eu observei foi que a própria forma como a gestão se relacionava com os Centros continha uma violência, no sentido do não reconhecimento da ação de quem estava na ponta. Os Centros enviavam os instrumentais sobre o que tinha sido feito e a devolutiva era apontar tudo o que eles tinham deixado de fazer, com base no preenchimento. Era só o não. O que eles tinham feito era absolutamente negado. Então eu comecei a fazer um trabalho com os técnicos da Arte e Cultura para que eles enxergassem o nosso lugar de um outro ponto de vista. Então houve toda uma mudança na leitura do instrumental, que foi um primeiro namoro e busca de modificar o padrão de relações. Ao invés de apontar tudo o que eles não tinham dado conta de preencher corretamente, os técnicos começaram a observar o que os Centros faziam e a se colocar diante dessas coisas observando o que tinha sido legal. Aquilo que não estava de acordo, por exemplo, uma Oficina que havia reunido poucos jovens, o técnico ao invés de dizer que o Centro não havia cumprido a diretriz, comentava que estava observando a dificuldade de atrair os jovens e sugeria refletir sobre o que estava acontecendo, se eram os jovens que já não queriam a Oficina, ou o educador que não estava agregando, se o Centro já havia conversado com o parceiro e de que forma desejava que a Arte e Cultura estivesse a seu lado. Assim, os Centros começaram a mudar, a dizer o que eles faziam, iniciamos uma outra interlocução. Depois que esse espaço estava mais aberto e enquanto isso acontecia, estávamos desenvolvendo com os parceiros, em encontros, um projeto para que a gente trabalhasse a não-violência dentro dos Centros, tanto com os jovens como com os funcionários. No segundo semestre o projeto já tinha um corpo e então consideramos que era o momento de conhecer os Centros e as pessoas e que elas precisavam também me conhecer. Percorri as 11 regionais e falei com os 142 Centros da Fundação, conversando com os gestores e equipes pedagógicas, tanto das Regionais como dos Centros, de modo que aquele início de relação com os instrumentais se materializasse numa relação pessoal. Essa circulação foi muito boa. A gerencia da Arte e Cultura passou a ter corpo e voz, a ir aos locais, olhar para eles, e isso também trouxe uma série de transformações relacionais. Em outubro, fiz uma videoconferência para todos os Centros da Fundação para contar sobre o projeto de Arte e Convivência que tinha sido elaborado com os parceiros e a Semana Gandhi foi o lançamento desse projeto. Ela não foi um fato isolado, foi um evento que coroou um trabalho que estava sendo desenvolvido. Enquanto isso acontecia, comecei outro trabalho que era de ajudar os Centros e os parceiros a estabelecerem uma relação de não-violência na resolução dos conflitos. A coisa mais comum era um educador agir de uma forma que não era a forma desejada pelo Centro. E, antes de qualquer coisa chegava um e-mail proibindo essa pessoa de entrar no Centro. Aí o parceiro ficava muito contrariado devolvia um e-mail a altura. E isso estabelecia o conflito entre eles. Havia situações em que o educador chegava ao Centro e não cumprimentava ninguém. Em devolutiva, os Centros faziam tudo para as atividades não acontecerem. Então, havia uma tensão entre os jovens, entre os funcionários, entre os funcionários e os jovens, entre os parceiros e educadores e os Centros. E quando essas situações aconteciam, comecei a fazer círculos de diálogo, para resolvê-las, buscando esclarecer que o que estava acontecendo não era uma situação única, que desentendimentos já tinham acontecido antes e que eu queria sentar todos à mesa não para conversar sobre o fato em si, mas usando o fato para pensarmos em conjunto formas melhores de lidar com os conflitos, mais produtivas, menos sofridas para todas as partes. Isso tem sido uma experiência de uma grande riqueza. Para isso colocamos juntos: o parceiro, a regional, eu e o técnico responsável pela regional onde o fato aconteceu. Esses círculos têm aberto a possibilidade dos Centros aprenderem a lidar com os conflitos de outra forma. E isso já tem trazido uma série de resultados, inclusive de Centros e parceiros começarem a chamar, a pedir ajuda para fazermos essa mediação, que tem sido muito importante e rica. Então, foi nesse contexto, em que houve a mudança dos instrumentais, a aproximação da Arte e Cultura com os Centros, esse encontro para a mediação de conflitos, que foi lançado o projeto Arte e Convivência e a Semana Gandhi. Eu propus a Semana como um convite. Queria que os Centros e parceiros participassem voluntariamente, para que tivessem interesse e real adesão à proposta. Que fosse uma participação voluntária. Não foi colocado como uma obrigação. Penso, no entanto, que fiz o convite um pouco em cima da hora, considerando que a organização dentro dos Centros não é simples. Mesmo assim 27 Centros aderiram e produziram trabalhos para a Semana Gandhi. Quando fiz o convite, fiz a proposta bastante aberta: que o lançamento do projeto e a Semana Gandhi fossem um espaço de convivência, onde os jovens, os funcionários das diferentes áreas dos Centros e os parceiros pudessem realizar alguma coisa em arte e cultura em conjunto. O fazer com era o grande pedido. Sem nenhuma outra regra. Cada Centro poderia fazer como achasse melhor, buscando vivenciar a experiência de fazer junto e perceberem a possibilidades dessa convivência. Apareceram trabalhos muito interessantes. Participaram 661 jovens, funcionários das diferentes áreas, desde os funcionários operacionais, que normalmente são excluídos de tudo, os agentes de apoio socioeducativos, os parceiros. São sempre mundos diferentes – o da limpeza, o da segurança, o pedagógico, o psicossocial. Os Centros de Gestão Compartilhada, que são administrados e tem o trabalho socioeducativo desenvolvidos por ONGs, todos entraram e cada um pensou o que escolhia da mensagem de Gandhi para ser compartilhado. Apareceram coisas muito bonitas e variadas. A Semana Gandhi virou o Mês de Gandhi, novembro inteirinho eles desenvolveram os trabalhos. Muitos Centros assistiram e discutiram o filme da vida de Gandhi, outros leram trechos de sua obra, leram contos indianos, contadores de histórias foram participar, foram feitas muitas palestras sobre os temas de Cultura de Paz e da vida de Gandhi, muitos grupos de discussão com funcionários e jovens, atos ecumênicos, grafites nos muros sobre a paz, peças de teatro, jovens fizeram músicas sobre a paz, danças celebrando a paz e a não violência, colagens, murais, aulas de hip-hop, skates. Houve uma diversidade muito grande de ação. O interessante de deixar livre é isso. Cada um foi criando a partir de sua experiência. Eu trouxe alguns trabalhos para mostrar, como o da Casa Guarujá, que produziu muitas coisas, culminando com uma projeção no chão da imagem do Gandhi que foi sendo preenchida com materiais de reciclagem e depois ficaram surpreendidos com o maravilhoso efeito obtido. Vejam um depoimento: “O dia foi maravilhoso e repleto de alegria. Os jovens entenderam muito bem o trabalho do Gandhi e consideraram o líder um exemplo a ser seguido.” Na Casa Taubaté eles fizeram uma série de ações e o depoimento que escolhi foi o seguinte: “Gandhi – a confiabilidade no seu eu. Enfatizamos a participação efetiva e entusiasmada dos jovens nessas atividades, sobretudo na convivência com o outro, a relação positiva entre seus pares, o ganhar e o perder como uma premissa de aprendizado para a vida”. No Centro Itaquera, onde fizeram também muitas coisas, e ao final tiveram uma aula de skate. O Centro ressaltou “o uso da não-violência como uma forma de gerir conflitos por meio do diálogo.” Essa foi a principal reflexão passada para os mais de 90 adolescentes e funcionários. Na Casa Franco, entre outras atividades, foi construído um grafite na parede, e a reflexão foi de que “a atividade tocou os jovens, fazendo-os expressar a gratidão por terem podido vivenciar essa experiência, por terem conhecido a vida do Gandhi, discutir os ensinamentos dele e de materializarem no grafite as coisas que puderam aprender e discutir. Sentiram-se felizes e úteis ao fazer a discussão”. Na Casa Iaras foi produzido um rap, chamado Paz uma realidade distante, no qual vão analisando não só para eles, mas na sociedade, no mundo, o quanto essa paz ainda está distante. Na Casa Madre Teresa de Calcutá, o evento foi chamado “Em busca da paz” e o depoimento foi de que “nós procuramos despertar o imaginário e a imaginação criativa dos jovens para que eles trouxessem à tona os seus sentimentos e conhecimentos sobre o tema da paz. Reafirmamos conceitos baseados em valores de respeito às diferenças e, sobretudo, a promoção da tolerância em todos os níveis das relações sociais.” Na Casa Sertãozinho, a partir da obra “Operários” da Tarsila do Amaral, os jovens e funcionários fizeram todo um trabalho de construção de máscaras e de móbiles. Por meio desse trabalho buscaram representar a pluralidade cultural do público da Fundação e a união, pelos móbiles, significando “o sentimento de unidade, no seu sentido mais amplo, que só será alcançado a partir do momento em que houver respeito às individualidades.” Vejam um depoimento de um adolescente da Casa Sertãozinho: “enquanto eu fiz me veio um pensamento na cabeça: a paz. Eu me senti mais alegre, conversando bastante e mostrando um pouco do talento que nós temos. Ninguém ficou parado. Como mensagem eu gostaria de falar para que o mundo não tenha discriminação, que todos sejam livres e que tenham muita paz para o resto de suas vidas”. Na Casa Rio Novo eles fizeram um painel a partir da discussão sobre a vida do Gandhi e escreveram “O amor é a arma irresistível que há entre os homens.” Na Casa Mauá fizeram um grafite lindíssimo para estimular uma mudança de mentalidade da atual agressividade, para uma mudança de olhar: “Um novo olhar para o amor, a generosidade, o afeto, o perdão, o respeito mútuo e a tolerância”. Estimular servidores e adolescentes a adotarem o diálogo como prática pacificadora, a fim de construir um ambiente harmonioso e sustentável. O Centro Turiaçu trouxe a conclusão de que apesar desse trabalho com o grupo Palas Athena, já ter sido realizado no Centro outras vezes, o projeto teve nessa última turma o seu melhor desempenho, pois os adolescentes se mostraram mais interessados, participativos e integrados “A grande diferença se deu também pela Palas Athena ter desenvolvido o mesmo projeto voltado para o corpo funcional em meados de julho.” Acho que isso é essencial. É preciso trabalhar a possibilidade de relações não-violentas entre os jovens, mas, sobretudo trabalhar essas relações também com o funcionários. Os desdobramentos continuam. O projeto Arte Convivência começou a ser desenvolvido e as Oficinas de Arte e Cultura estão trabalhando essa possibilidade da não-violência por meio da arte, de outra forma de conviver. As rodas de diálogo que antes eram propostas por mim, começam a ser propostas pelos outros. Isso é uma mostra de que circulou na rádio peão que vale à pena, mostra a efetividade da possibilidade dessa relação. E começaram a aparecer em Centros e Regionais outros projetos autônomos de Cultura da Paz. Então, esse gérmen que foi lançado pelo Arte Convivência está semeando e difundindo e é a partir dessa experiência que vai ficando provado que é possível em um espaço como a Fundação Casa, tão impregnado de dor, de tensão, de violência, discutir a possibilidade de relações não-violentas. Isso é possível e necessário. Termino, assim, com uma frase do Gandhi de “olhar o outro com olhar de confiança, um olhar luminoso, e ele verá toda a sua pessoa cheia de luz.” Obrigada
A Comunicação Não-Violenta (CNV) é um processo conhecido por sua capacidade de inspirar ação compassiva e solidária. Ensinada há mais que 40 anos por uma rede mundial de mediadores, facilitadores e agentes voluntários, fundada pelo psicólogo Dr. Marshall Rosenberg, a CNV está sendo utilizada em cada nível da sociedade por um crescente numero de pessoas que desejam intervir e agir com meios práticos e eficazes em favor da paz.
Como funciona?
A CNV parte da observação de que a crescente violência que nos cerca e na qual estamos inseridos é reflexo de uma lógica de ação e relação divorciada de nossos verdadeiros valores. Através de uma série de distinções precisas, o trabalho revela como as formas culturais predominantes de nos comunicarmos, com nós mesmos e com os outros, levam-nos a entrar em choque com colegas, familiares e pessoas com opiniões ou culturas diferentes, e assim iniciar ciclos de emoções dolorosos. Eminentemente prático, o processo oferece alternativas claras aos confrontos em que ficamos presos e à lógica destrutiva da raiva, punição, vergonha e culpa.
No coração da Comunicação Não-Violenta está a dinâmica que dá fundamento à cooperação – nós seres humanos agimos para atender necessidades, princípios e valores básicos e universais. Com a consciência que esta constatação nos fornece, passamos a enxergar a mensagem por trás das palavras e ações dos outros, e de nós mesmos, independente de como são comunicadas. Assim, as críticas pessoais, rótulos e julgamentos dos outros, seus atos de violência física, verbal ou social, são revelados como expressões trágicas de necessidades não atendidas.
Além de uma abordagem de clareza e mediação pessoal, a CNV possibilita mudanças estruturais no modo de encarar e organizar as relações humanas (gestão de grupos e organizações) e na questão da responsabilidade, diminuindo a chance de agressões ou dinâmicas de grupo opressoras.
A Comunicação Não-Violenta foi usada primeiramente em projetos federais do governo americano a fim de integrar de forma pacífica escolas e instituições públicas durante os anos sessenta. Ao longo dos últimos 40 anos o Dr. Rosenberg e sua equipe criaram sistemas de apoio à vida nas relações intra - e interpessoais, com administradores escolares, professores, profissionais de saúde, policiais, mediadores, sistemas jurídicos, gerentes de empresas, detentos e guardas, líderes religiosos judeus, cristãos, budistas e muçulmanos, autoridades governamentais e outros, em mais de 50 países.
O progresso científico permitiu a produção e a proliferação de armas de destruição em massa - nucleares, químicas e biológicas. O progresso técnico e industrial provocou um processo de deterioração da biosfera, e o círculo vicioso entre crescimento e degradação ambiental se amplia. A globalização do mercado econômico, sem regulamentação externa nem auto-regulamentação verdadeira, criou novas ilhas de riqueza, mas também zonas crescentes de miséria; ela provocou e vai continuar a provocar crises sucessivas, e sua expansão se dá sob a ameaça de um caos para o qual ela própria contribui em muito. Os avanços da ciência, da técnica, da indústria e da economia que vão levar a nave Terra adiante a partir de agora não são regulados nem pela política, nem pela ética. Assim, o que parecia dever assegurar o progresso certeiro traz consigo possibilidades de progresso futuro, é verdade, mas também gera e intensifica os perigos.
Os fenômenos acima citados são acompanhados por diversas regressões bárbaras. As guerras se multiplicam no planeta e, cada vez mais, são caracterizadas por seus componentes étnico-religiosos. A consciência cívica perde espaço em toda parte, e violências de diversos tipos corroem a sociedade. A criminalidade mafiosa tornou-se planetária. A lei da vingança toma o lugar da lei da Justiça, arrogando-se o papel da verdadeira justiça.
As concepções maniqueístas dominam os espíritos, fazendo-se passar por racionalidade. Os loucos de Deus e os loucos pelo ouro agem sem freios. Existe uma conexão entre as duas loucuras: a globalização econômica favorece o financiamento do terrorismo, que busca desferir um golpe mortal contra a mesma globalização. Nessa área, como em outras, a barbárie odiosa vinda dos confins dos tempos históricos se soma à barbárie anônima e gelada própria de nossa civilização.
As comunicações se multiplicam no planeta, mas a falta de entendimento aumenta. As sociedades são cada vez mais interdependentes, mas estão cada vez mais dispostas a se destruir mutuamente.
A ocidentalização toma conta do mundo, mas provoca reações de encerramento em torno de identidades étnicas, religiosas e nacionais. As certezas irracionais voltam a provocar desentendimentos, mas a racionalidade abstrata, calculadora, "economística", administradora e tecnocrata é incapaz, também ela, de compreender os problemas em suas dimensões humanas e planetárias. Os espíritos abstratos enxergam a cegueira dos fanáticos, mas não sua própria cegueira. As duas cegueiras, a da irracionalidade concreta e da racionalidade abstrata, se unem para lançar uma sombra escura sobre o novo século nascente. Já chamei a atenção, há muito tempo, para o fato de que o Oriente Médio se encontra no centro de uma zona sísmica planetária onde se confrontam as religiões entre elas, as religiões e o espírito profano, o Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul, países pobres e países ricos. O conflito israelo-palestino, no coração dessa zona sísmica, constitui, ele próprio, uma espécie de câncer cuja metástase corre o risco de se espalhar pelo planeta.
Essa cartilha, escrita por Lia Diskin e Laura Gorresio Roizman, tem como principal objetivo o desenvolvimento da criatividade, do diálogo e da aceitação do outro como estratégia educativa para a construção de uma Cultura de Paz. Para transformar os valores da Cultura de Paz em realidade na vida cotidiana, as autoras apostam na educação para criar e incentivar processos inclusivos na juventude.
A cartilha apresenta textos teórico baseados nos quatro pilares da Educação do futuro - aprender a conhecer, a fazer, a viver junto e a ser - e nos seis princípios do Manifesto 2000 da UNESCO - respeitar a vida, ser generoso, ouvir para compreender, redescobrir a solidariedade, rejeitar a violência e preservar o planeta. Sugere também muitas atividades voltadas principalmente para o público jovem,como jogos, dinâmicas de grupo, espaço de leituras, artes manuais, discussão sobre os meios de comunicação e outros.
1. Introdução: O que é uma palavra? Ou duas? Ou três?
Quando tratamos com palavras tão ricas como “cultura” e “paz”, é aconselhável proceder com algum cuidado. Um consenso sobre seu uso não é possível nem desejável, nem sequer necessário. Mas o leitor tem o direito de saber como o autor está usando as palavras. Deve haver uma espécie de contrato, explícito até, ao menos durante a leitura destas páginas. Assim, mãos à obra:
A cultura é um aspecto simbólico da existência humana. A cultura é representação, através de símbolos, em geral visuais ou sonoros, organizados de modo diacrônico ou sincrônico2. Recentemente esta representação (como se vê na TV em tempo real ou no computador de forma interativa) aproximou-se tanto da realidade que o termo “realidade virtual” é usado como uma realidade fictícia. Talvez alguém alegue que isto não é arte, que a arte ressalta alguns aspectos da realidade e obscurece outros. Mas esta não é uma objeção válida, pois a cultura é uma categoria mais abrangente que a arte.
Como acontece com as finanças em relação à economia real, a cultura vai adquirindo vida própria, com sua própria lógica, no final acabando por representar nada senão ela mesma – ela evolui, se reproduz através do encontro de culturas e dá à luz novas culturas, que brotam como vírus e invadem a mente humana programando-a para reproduzir tal cultura, ocasionalmente somando ou subtraindo algo. O resultado é uma enorme quantidade de cultura, a linguagem sendo um dos exemplos mais óbvios, na sua forma escrita ou falada, e exigindo competências específicas de emissor e receptor.
Novamente recorrendo à comparação finanças / economia real: É preciso haver algum tipo de sincronia. Os humanos não vivem só de pão, mas tampouco vivem só de palavras, símbolos. Se há cultura demais em relação àquilo que ela representa, teremos inflação, um estado de “sobreculturação” – e se há cultura de menos, teremos um estado de “subculturação”, ou a escassez de significado. Muitas vezes falamos do desgaste de certas palavras, como acontece com a palavra “paz”, para não mencionar a palavra “amor” que são ditas sem lastro de valor real. A “paz” da guerra fria é um exemplo disso3. Tal fenômeno pode resultar em falta de confiança e numa “quebra” da bolsa cultural: algumas palavras, como as ações das empresas, passam a não valer nada. A queda do valor pode ser rápida ou lenta, como o índice Dow Jones comparado ao Nikkei.
Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes textos sobre a transformação da mente, Lojong Tsigyema (Oito Versos que Transformam a Mente). Este texto foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisatva bastante incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido a transmissão do comentário de Kyabje Trijang Rinpoche.
Com a determinação de alcançar O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes, Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos, Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.
Aqui, estamos pedindo: "Possa eu ser capaz de enxergar os seres como uma jóia preciosa, já que são o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência; portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los."
Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas, E, com todo respeito, considerá-las supremas, Do fundo do meu coração.
"Com todo respeito considerá-las supremas" significa não as ver como um objeto de pena, o qual olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado. Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores a nós porque desconhecem as coisas certas a serem adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva das emoções negativas. Embora seja essa a situação, podemos também enxergar os fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência da natureza destrutiva das emoções negativas, deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse sentido, somos inferiores aos insetos.
Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente E, sempre que surgir uma emoção negativa, Pondo em risco a mim mesmo e aos outros, Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.
No transcurso da história, diferentes sociedades desenvolveram códigos de valores particulares, determinando com essas singularidades, identidades específicas pelas quais as conhecemos. De modo semelhante, nosso tempo é reconhecido pela utilização dos valores denominados “ocidentais e cristãos” como referência para suas leituras da realidade, circunscrevendo com esta nomenclatura, o conjunto de premissas utilizadas para pensar e interpretar o mundo.
O paradigma “ocidental e cristão” foi se constituindo lentamente através de duas vertentes fundamentais. A primeira delas teve suas origens na Grécia do século VI a.C., sendo chamada ocidental por haver tido como referência para firmar sua própria identidade, os valores sustentados nas culturas orientais. Nesse sentido, é importante sinalizar que o termo “ocidente” é muito mais que uma designação geográfica qualquer, pois define uma cosmovisão, um particular estado de espírito incorporado por uma comunidade.
A segunda vertente introduziu os princípios das tradições sapienciais judaico-cristãs, contribuindo desse modo para que o conjunto dos valores herdados através da razão de Atenas e da fé de Jerusalém conformasse o Espírito de Ocidente, origem da identidade cultural que nos qualifica, assim como o modo pelo qual interpretamos, avaliamos, sentimos e pensamos a realidade do mundo.
As fantásticas qualidades dessas duas vertentes alicerçaram o progresso espiritual e material das inúmeras culturas que compõem a Civilização Ocidental, mas não obstante suas virtudes inegáveis, em diferentes momentos da história, tanto a razão quanto a fé se excederam nas áreas de suas competências, exigindo obediência absoluta para suas respectivas leituras da realidade1.
As conseqüências da utilização abusiva da razão e da fé respectivamente, produziram falsas idéias de progresso e crenças mal assimiladas propiciando o aparecimento de “racionalismos” e “sacerdotalismos2”, gêneses de conflitos infindáveis.
O racionalismo pode ser definido como a tendência de inferir que os discursos construídos pela razão são as únicas explicações possíveis e aceitáveis sobre a realidade e o mundo. O sacerdotalismo, por sua vez, é a conseqüências de substituir os valores da fé por crenças históricas, dando maior destaque aos aspectos exteriores da religiosidade em detrimento da interioridade e da espiritualidade.